O celular que não vou te dar

IMG_7859.JPG

"Por que que você quer que eu me sinta diferente?"

Esse foi o questionamento de João, quando ele, mais uma vez, investia numa conversa comigo sobre ter ou não celular.

João tem 10 anos e na minha avaliação ele ainda não precisa de um celular. Essa constatação é diferente do seu desejo e eu, como mãe, preciso lidar com isso. Preciso estar disponível para colher a raiva e a frustração dessa vontade não atendida. Preciso ter paciência para dialogar, mostrar, explicar, sem jamais querer convencê-lo que de seu desejo não é válido. Ele é. Mas as minhas crenças sobre crianças e celulares também é e eu sou a mãe dele, ou seja, aquela que está ali para estabelecer as margens.

Estou contando isso porque essa batalha é dura e ela precisa que nós, mães e pais, estejamos dispostos a enfrentá-la. Nossas crianças são nativas digitais. Elas se relacionam com a tecnologia de um lugar diferente de nós. Elas já sabem o que fazer diante de uma tela. A aula de informática da escola é obsoleta e o que eu penso sobre mundos virtuais também. No entanto, as relações humanas, isso não ficará velho jamaise é aí que estamos falhando solenemente. Nossos filhos não precisam ter um celular antes dessa necessidade existir realmente e quem decide isso e a dinâmica familar de cada um. O celular não pode atender ao desejo de pertencer ao grupo, de fazer parte, porque ele carrega outras características que são diferentes da mochila da Company que você chorou para ganhar – e ganhou. Celular vicia. E quando é a hora de dar o bendito celular, Lua? Essa régua é pessoal e eu não sou a fiscal do celular alheio, mas estudos apontam que antes dos 13 anos é importante evitar esse acesso, essa facilidade.

Essa postura talvez soe radical, mas e perder a filha para brincadeiras virtuais? E as crianças estarem expostas a abusadores? E a violência? E o cyber bulling? E a incapacidade de dialogar? A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, né? Que temos como controlar. Pois te digo: não temos. O que podemos fazer é isso: segurar, conversar, estabelecer limites e construir com eles uma relação saudável com redes sociais, com o que é de fato bacana e o que não é.

E filho, eu não quero que você se sinta diferente. Meu celular está a sua disposição quando você precisar checar o que acontece no seu grupo de amigos. Eu quero que você saiba que eu estou aqui e que, por enquanto, eu sei o que é melhor para você. Entendo sua chateação, sua raiva e posso te ajudar a fazer ela passar, se você quiser. Preciso que você leia uma pesquisa que vi recentemente sobre tudo isso. Quero saber a sua opinião depois. Quero te ouvir. Vai ficar tudo bem.

Links para quem quer ter essa conversa com as crianças:

  • https://antesqueelescrescam.com/2014/03/11/10-razoes-para-se-proibir-tecnologia-para-criancas/

  • https://madinbrasil.org/2017/08/autismo-virtual-pode-explicar-o-crescimento-explosivo-do-transtorno-do-espectro-autista-asd/

  • https://www.waituntil8th.org/

  • https://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/23/tecnologia/1498213275_166491.html

  • https://pt.aleteia.org/2018/04/06/infancia-digital/