Difícil, eu?

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Crianças difícies. Esse conceito difuso tem surgido muito nos meus atendimentos. A busca é por algo que "concerte" as crianças, deixe elas mais "normais", mais obedientes, menos agitadas. Entre as queixas estão a dificuldade de ouvir, uma certa agressividade, uma facilidade de xingar, explodir. Se a criança em questão tiver um irmão, a sentença está dada, o rótulo está posto e o laudo está pronto. Agora é só passar na farmácia para resolver a questão.

Será?

Entendo as nuances e delicadezas desse assunto e longe de mim querer fazer diagnóstico infantil pelo instagram. Só quem vive as demandas de uma criança que exige mais atenção sabe o quanto tudo isso pode exaustivo e solitário, mas o meu ponto é: será que todas esses pequenos precisam mesmo de um diagnóstico, um laudo e principalmente, uma medicação?

A necessidade e a expectativa dos adultos de que a criança corresponda ao que está catalogado, esquece de olhar o indivíduo. Esquece de abraçar as variedades. Exclui a possibilidade de ser e fazer coisas de jeitos diferentes. A escola, muitas vezes, potencializa essa busca e o diagnótico sobre a criança, isenta a instituição de tentar caminhos alternativos e culpabiliza os pais pelo que ela considera falta de limites da criança. É batata quente que ninguém quer segurar. Enquanto isso, o Brasil ocupa o segundo lugar na venda de remédios psicolestimulantes, usados para controlar e atenuar os comportamentos considerados inadequados para o ambiente escolar. Esse número é grave, sério e merece nossa atenção e o nosso questionamento. Pode ser que seu filho precise mesmo de uma intervenção médica, mas pode ser também que vocês estejam apenas enfrentando uma temporada difícil.

Percebo a dificuldade dos pais em serem margem para seus filhos e entendo o quanto isso pode ser prejudicial. Vejo o quanto crianças são poupadas de frustrações e isso acaba se transformando numa bomba relógio. Do outro lado, encontro cada vez mais escolas interessadas em manter crianças de 4 anos sentadas para fazer atividades que serão entregues a pais pouco interessados com o que acontece na sala de aula ao fim do semestre. Encontro também alfabetização precoce e aulas de informática no jardim de infância, encontro aulas de química exatamente iguais como eram há 40 anos atrás. Não tá fácil nem de um lado e nem de outro. Para quem vive esses desafios eu proponho a pausa. Antes de querer concentar o que nem sempre está quebrado, vale a pena buscar a conexão com a criança que está bem aí na sua frente. E independente da sua escolha como pai e mãe sobre como lidar com as questões que o seu filho apresenta, esteja disponível para o toque, o beijo, o olho no olho. Isso é potente. Além disso, se seu filho realmente precisa de um acompanhamento médico, não se envergonhe, não se isole e cuide de você também. É  você quem faz a roda girar.