Sobre resiliência

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No dia em que anunciamos a viagem, Teresa correu para o quarto e "preparou sua mala". Depois veio na sala mostrar o que ia levar: uma blusa com proteção UVA, a calcinha do biquini, duas pulseiras e mais alguns brebotes. A mala era na verdade uma maleta de metal com alguma princesa na frente e uma alça de miçanga. Já tinha uns meses que ela carregava aquela bendita para cima e para baixo e claro que ia levá-la para Recife.

Um dia antes de voltarmos, ela foi ao cinema com a avó e levou a maleta a tira colo. Entre menino, pipoca, frio e vontade de fazer xixi, a maleta foi esquecida e só lembraram dela quando já estavam em casa.

Teresa chorava inconsolada. Minha mãe, sentido-se culpada pensava maneiras resolver a situação, minha irmã no telefone ligando para o shopping, Pedro sem acreditar naquela cena, tendo uma reunião de trabalho no meio da sala confusa. E eu? Dando colo.

Minha mãe e minha irmã voltaram no cinema, acenderam as luzes, procuraram em baixo de cada poltrona. Foram nos achados e perdidos e nada. Voltaram para casa arrasadas e por conta da hora, não conseguiram comprar nada para substituir a perda. Ainda bem. Teresa havia adormecido entre um choro e outro, mas o tempo todo ela tinha sido acolhida na sua dor. Na tentativa de resolver, a solução mais prática seria encontrar uma outra maleta. Se fosse igualzinha, melhor ainda! Mas e que estava dentro? Todo aquele tesouro havia desaparecido também. É… repor o tesouro seria mais complicado.

Entender que nem tudo precisa ser substituido é difícil. Queremos tapar buracos. É mais fácil do que olhar para eles e apenas seguir em frente. Perder coisas é uma merda. Perder pessoas é desolador. Mas é algo que acontece e a vida precisa seguir. Ensinar sobre isso, é ensinar sobre resiliência, sobre o que sentimos.

Teresa não ganhou outra maleta, mas encontrou uma bolsa velha em casa onde passou a guardar outros tesouros. Não pode ver uma caixa, que já começa a guardar coisinhas, sementes, bijuterias, trecos. Se a gente tivesse comprado outra bem ali naquele momento, deixaríamos passar uma oportunidade e tanto de construir com ela o significado da perda (ela ainda fala da maleta, mas agora de um jeito leve, divertido até) e a importância de se refazer, de dentro para fora e não de fora para dentro. #parentalidadepositiva #equlibrioparental