Encorajar

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Depois de quase um ano dando todas as desculpas possíveis para evitar um corte de cabelo à la Neymar e sua turma, consegui convercer João a deixar o cabelo crescer, só um pouquinho, como ele fazia questão de dizer. Claro que quando os fios começaram a balançar, ele gostou do que viu e passou a curtir o processo. Nota importante: se existe um pré-adolescente mais querido no centro-oeste, eu desconheço. João, a cada dia, me surpreende com sua inteligência, doçura e perspicácia. É um menino questionador e com sérias dificuldades de assimilar o não, o que eu acho particularmente bom, apesar de cansativo.

Voltando ao cabelo, João entendeu que durante as aulas não dava para deixar o charme atrapalhar a visão do quadro e que era preciso dar um jeito de prender a franja. Como quem não quer nada, pediu uma faxinha, uma tiara e uns elásticos, para ver o que ficava melhor. Fizemos juntos um meio coque, meio rabo de cavalo. Ele foi no banheiro, olhou, sorriu, deu aquela viradinha básica para conferir por diferentes ângulos. Teresa entrou e mandou: Joãozinho, você tá lindo! E eu só pude concordar. Mas logo em seguida, ele desfez o penteado e disse que achava melhor não ir com o cabelo preso para a escola.

Respirei fundo.

- Por que você não quer ir com o elástico? Ficou super bom!

- Acho melhor não, mãe.

- Você acha que alguém vai rir de você?

- Os meninos do quinto ano com certeza vão rir e falar qualquer coisa.

- Tá certo, filho. Você pode usar o cabelo preso em casa, até se acostumar, até se sentir bem seguro, pronto para encarar quem quiser rir de você. Mas ó...Você sabe que não tem motivo nenhum para ninguém rir, né?

- Sei! Claro que sei. Mas tem muita criança que acha graça em diminuir o outro.

- Tá. Vem aqui, me dá um abraço e escova os dentes, que já estamos atrasados.

Eu sei que nem sempre a gente sabe o que se passa na hora do recreio na escola dos nossos filhos. Sei que muitas vezes, a gente acredita que eles jamais fariam uma coisa dessas. Mas a certeza pode nos cegar e diálogo nunca é demais. Precisamos conversar sobre valores com eles. Contar o que está acontecendo com o mundo, sem firulas. Explicar a situação política do país para que ele não seja o adulto que diz que não entende de política ou que não está interessado. Não devemos diferenciar o comportamento entre meninos e meninas, os fortes e as frágeis. Tratemos eles de forma igual. E principalemnte: não os defenda de tudo e todos. É preciso assumir responsabilidades diante de situações adversas. É isso que pode trazer alguma mudança de comportamento. Precisamos entender o que eles acham importante, quem eles acham importante. Não podemos cansar de conhecer e de cuidar dos nossos filhos e precisamos entender que essa missão dura a vida toda. Quanto a João, sigo respeitando seu tempo de desabrochar e encarar o mundo com todas as suas crueldades, me colocando à disposição para ser escudo, espada ou colo. Sigo também observando seus movimentos para saber quando posso dizer: vai lá, você dá conta ou não, tá tudo bem não dar conta agora.