Para todos

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De vez em quando me perguntam se eu não acho que esse pensamento sobre parentalidade é elitista. Se falar sobre educar filhos sem violência não é coisa de gente que pode estudar em boas escolas. Se dialogar com crianças não é para quem faz yoga. Se manter o equilíbrio e escolher não gritar com os pequenos não é apenas para quem medita.

Esse questionamento me tomou o coração por um tempo. Pensei em desenvolver trabalhos comunitários, em falar com familias com realidades diferentes da minha timeline. Pensei em várias coisas e algumas delas irão se tornar realidade em breve, mas antes de me deixar tomar pela angústia e desmerecer o que venho fazendo, olhei para o meu lado.

Todos os dias quando saio de casa, deixo meus filhos com Dinha, que trabalha na minha casa. Dinha é do Maranhão e veio para Brasília tentar uma vida melhor. Deixou os dois filhos com a mãe, sempre com a promessa de trazê-los um dia. Dinha casou com Josias, pai de 4 outros filhos, cada um com uma companheira diferente. Dinha se tornou madrasta de fim de semana e, aos poucos, foi encontrando caminhos muito amorosos para estabelecer uma relação com essas crianças–que, até pouco tempo, apanhavam de cinto.

Há 9 meses Dinha trouxe Isabelly, a filha mais velha, para morar com ela. O marido também pegou o caçula para morar com eles. O menino tinha 6 anos e ainda não reconhecia as letras. Era chamado de burro, não queria ir para a escola. Dinha vinha conversar comigo, pedia conselhos. Falávamos sobre os castigos–que ela reconhecia que não funcionavam, falávamos sobre as humilhações e xingamentos e como aquilo deixavam o menino no mesmo lugar. Falávamos sobre (re)construir a autoestima das crianças e recuperar o vínculo, depois de tanto tempo de afastamento.

Dinha é uma mulher com uma realidade muito diferente da minha e que me mostra o quanto esse pensamento sobre parentalidade não é sobre ter estudo, fazer yoga ou meditar. É sobre trabalhar duro, sobre estar disponível. É sobre acreditar que pode se relacionar de um jeito diferente com as crianças, mesmo sem ter vivido isso. É sobre construção.
O filho de Josias está lendo. Isabelly está adaptada à cidade. Dinha e eu seguimos juntas, apesar do mundo insistir em querer nos separar.