Minhas imperfeições

Ao me tornar mãe, iniciei uma peregrinação por dentro de mim. Olhar com muita sinceridade para quem eu era até ali, me permitiu descobrir cantos escondidos, atalhos até o coração, retalhos de outras mulheres. Me abri para a desconhecida eu e assim, sem grandes expectativas, fomos nos tornando íntimas. Hoje, nove anos depois do início desse caminhar, encontro uma Luanda segura, equilibrada emocionalmente, mas que ainda cai na armadilha de tentar ser a mãe perfeita.

A amamentação de Joaquim foi um grande desafio desde o início. Nunca havia sentido tanta dor. Nunca havia me sentido tão fracassada e tão forte ao mesmo tempo. Tive, durante 29 dias, as melhores pessoas ao meu lado, me orientando, segurando minha mão, secando minhas lágrimas. A montanha russa de sentimentos me fazia querer desistir e continuar tentando em intervalos de minutos. E entre o “dá logo uma mamadeira” e o “aguenta firme que vai passar”, eu escolhi a segunda opção. E assim, como num passe de mágicas, as dores passaram e amamentar se tornou algo prazeroso.

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Mas acontece que dar de mamar não é só oferecer o peito. Amamentar é estar disponível, inteira. E infelizmente, eu não estava, não estou. Luanda, mãe de Joaquim, é também mãe de outras três crianças, com demandas emocionais, físicas e espaciais, que precisam e são atendidas por mim. Para Joaquim, eu sou apenas um quarto de Lua, da sessão filhos. Isso quer dizer que nem sempre eu consigo. Sim, depois de toda aquela batalha pelo peito, eu me rendi a mamadeira e ao leite artificial. Joaquim mama no peito quando eu estou presente. Quando eu estou inteira para ele, nos outros momentos, ele toma mamadeira.

Aceitar isso não foi fácil. A mamadeira é sim uma inimiga da mãe que deseja amamentar com exclusividade e por muito tempo. E no meu ideal de mãe perfeita ela nem entrava na lista de enxoval. Ser mãe pela quarta vez foi mais um convite a olhar para dentro, a me redescobrir. E diante de cada situação que me chega, eu tento entender o que está por trás, qual o ensinamento e a grande lição que eu preciso aprender. Ser mãe de quatro crianças me mostra, todos os dias que mães perfeitas não existem. Ainda bem.