Sapatos?

Eu já tive uma coleção de sapatos. Coleção mesmo, daquelas que tem até sapato que a pessoa não usa. No meu caso, não usava porque era um número a mais e realmente não cabia no meu pé. Mas era tão lindo...Cheguei a ter uns 80 pares de sapato. Lembro que quando casei, um dos principais móveis do apartamento era a minha sapateira. Dez anos se passaram e muita mudança aconteceu. Mudanças estrut urais ( foram 4 cidades e 9 casas) , mudanças emocionais (3 filhos), mudanças profissionais (já fui da publicidade, ja fui consultora de estilo pessoal, hoje trabalho como doula e estou num mergulho bem profundo nas terapias alternativas, mas esse é assunto para um outro post).

Rapidamente entendi que não seria viável carregar tanto sapato assim pra cima e pra baixo e iniciei um processo de desapego. A última grande leva saiu há um ano, quando deixei São Paulo. Hoje devem ter uns 8 pares, sendo que 4 deles são saltos que funcionam exclusivamente para compor o look de princesas e fantasias que as meninas usam. Ou seja, viraram brinquedos. Outro dia quis muito um tênis branco e comprei. Mas fazia tanto tempo que não fazia isso, que errei o número e o tênis virou presente para uma amiga.

Além do meu senso prático ter sido ativado com todas essas transformações e mudanças, um outro fato no meu processo com sapatos me marcou muito. Ainda como consultora eu atenti uma designer de sapatos. Ela tinha uma loja, trabalhava com isso, respirava isso. Quando fui ao seu guarda-roupa pela primeira vez, ela me mostrou como guardava os pares que tinha. Eles estavam todos nas caixas, absurdamente bem conservados e lindos. Dentre todos, o preferido era um que havia sido da mãe dela, desenhando por uma designer que a minha cliente adorava e que já havia morrido. A relação dessa mulher com sapatos era muito especial, intensa e clara. Ela usava os que mais gostava, uns 3 ou 4 e aquilo bastava. Os outros eram mais um arquivo da história dela, algo importante de ser guardado com aquele cuidado. Continuo achando sapatos algo muito bonito, mas entendi que não preciso de tantos. Entendi também que criança precisa de menos ainda e que privilégio de verdade, é andar descalça.