Meninos, meninas e futebol (ou sobre como falar de feminismo com seus filhos)

João chegou em casa bravo. Estava irritado com a professora da escola, que tinha impedido um jogo de futebol dos meninos, para que as meninas tivessem acesso a quadra. Eles poderiam jogar juntos o futebol, mas as meninas não queriam. Queriam o espaço para elas fazerem o que bem entendessem e não jogar futebol com os meninos. João engrossava o coro de que não era justo, que as meninas podiam muito bem jogar junto com eles, mesmo elas não sabendo jogar tão bem quanto eles.

Começamos a conversar e isso rendeu por 3 semanas (como é de costume com João). Ele não entendia porque as meninas não podiam simplesmente jogar junto com os meninos. Para ele, não fazia sentido eles terem que abrir mão da quadra, por elas, que nem jogavam bola. Puta mundo injusto.

Ali, bem diante dos meus olhos, meu filho me dava a oportunidade para falar sobre feminismo. Sobre a importância de chamar as meninas para perto e de olhar para elas como seres iguais a eles, os meninos. Foi engraçado perceber a construção das ideias em sua cabeça. De um lado, eu não conseguia compreender que “as meninas não gostam de futebol” e do outro lado, ele sem saber direito o que significava estimular as meninas a jogarem. Ontem, depois de 3 semanas, conversando sobre a sua festa de aniversário, ele me disse:

- Acho que entendi, mãe. As meninas precisam ser incentivadas. Elas precisam ter um time delas. Alguém que ensine a elas a jogar, um horário para elas na quadra…

- Isso, filho. Exatamente isso. Se elas tiverem esse espaço, talvez muitas delas descubram o quanto gostam de futebol.

- Mas eu acho que isso não vai acontecer. Não acho que na escola vão pensar assim.

- Não tem problema, filho. A gente pensa assim aqui em casa e a gente vai chamar as meninas para jogarem futebol na sua festa.

- Aí a gente vai fazer a nossa parte, de incentivar as meninas.

- É. Vai ser um começo.