Todas as outras cores

Estava numa livraria com Irene e precisava comprar um caderno para João. Me dirigi até a vendedora e fiz o pedido. Ela me devolveu com uma pergunta: é para menino ou menina?

Pensei dois segundos se deveria levar aquela conversa adiante e resolvi que sim. Segue o nosso diálogo:

- Faz alguma diferença se é para menino ou menina? (Eu, com cara de desentendida)

- Faz. O motivo da capa é diferente. (Vendedora surpresa com a minha pergunta)

- Ta. Mas qual a diferença mesmo? (Eu, ainda com cara de desentendida)

Senhora, um tem desenho de menina e outro tem desenho de menina. (Vendendora levemente irritada)

- Mas um desenho não significa nada. O caderno serve para meninos e meninas, sem diferenças. É só um caderno. (Eu, calma.)

- A senhora pode não se importar, mas tem gente que se importa. (Vendedora sem acreditar naquele diálogo)

- Entendi. Mas e você, você se importa? Você não acha que você pode fazer a diferença nessa coisa besta que é essa divisão entre meninos e meninas? Na hora que você está vendendo um caderno, você não precisa diferenciar. Porque na verdade, não tem diferença, né? (Eu, tentando ser didática)

- A senhora vai me desculpar, mas tem diferença sim. (Vendedora já MUITO irritada comigo)

- Sabe o que vai acontecer se você continuar pensando assim? Você vai sempre ganhar o salário de uma menina.

Ela não falou mais nada. Calou. Foi pensar na vida.

Ontem, as crianças estavam brincando e mãe e filha. João era a mãe e estava dando de mamar para Teresa. Eu achei aquilo muito lindo, muito forte, muito simbólico. O mundo dividido em rosa e azul é muito chato. Coisa de menino e coisa de menina? Sério mesmo? Aqui em casa não, obrigada. #nodramamom