O caso do cocô

Ter mais de um filho permite que você vivencie ao mesmo tempo, vários ciclos e ritos de passagem, sem achar que você é coisa mais importante do mundo, já que é humanamente impossível dar conta de tudo. É uma oportunidade de observar o ritmo de cada criança, sem interferir tanto e praticar o respeito ao outro, mesmo que esse outro tenha apenas 3 anos (risos). Semana passada, enquanto desempacotava mudança, fazia adaptação na escola nova, cuidava da pintura do apartamento novo, ligava para o moço da NET e espantava os gatos da minha sogra, tive que encarar dois momentos muito especiais das minhas filhas. Cada uma delas enfrentava desafios importantes e eu, fui convidada a observar, já que não era possível fazer outra coisa. Hoje conto o da Irene.

Irene, com 3 anos, não fazia cocô na privada. Nem no penico e nem em lugar nenhum. O negócio dela era a fralda. Sempre que batia a vontade, ela pedia a fralda. No começo, achei que era parte do processo dela de desfralde e que logo conseguiria fazer o número 2 sozinha. Mas isso não aconteceu e demorou quase um ano e meio até ela se sentir segura e à vontade para sentar na privada. Tentei conversar, argumentar. Queria saber o motivo daquela fralda e ela dizia: eu não gosto da privada.

Somos todas terapeutizadas, mas a verdade é que lidar com as dificuldades dos filhos não é fácil. Quando algo não sai como  “esperado”, ficamos tentando entender as razões e claro, queremos soluções. O cocô na fralda de Irene me incomodava e eu queria muito que ela conseguisse passar daquela fase. Nesse meu querer, claro que a pressionei. Ocilava entre o “ta tudo bem” e o “será que tem alguma coisa errada?” semana sim, semana não. O pediatra dizia para eu não me preocupar e sempre que o assunto me irritava, lembrava de suas palavras. Corta.

Dia da mudança chegar, muitas caixas e uma bagunça generalizada. Eu estou só com as meninas no apartamento e bate a vontade de fazer cocô. Não tenho fralda comigo, claro. Irene vem, pede a fralda, chora, diz que está com vontade. Eu sento com ela, dou colo, abraço forte e digo que ela pode fazer o cocô dela onde ela quiser, mas que agora, ali, não tem fralda. Ela olha pra mim e diz que vai na privada. Lembra de uma promessa feita lá trás, onde eu trocava uma cocô na privada por uma fantasia nova e pergunta se ainda está valendo. Eu digo que sim, claro! Coloco ela no vaso e fico agachada, junto dela, segurando sua mão. Sem muito esforço, ela consegue. Eu fico sem acreditar e choro abraçada com ela, que também está super orgulhosa de ter conseguido. Ela fez cocô na privada!! E quis fazer vídeo para contar para todo mundo da família e mandar pelo whatsapp. E chamou Teresa para ver, que vibrou pela conquista da irmã e tem feito isso desde então, todos os dias.

Desfralde é coisa séria e o segredo é respeitar o tempo de cada criança. Não existe idade certa, o que existe é um ser humanozinho em constante aprendizado e uma mãe tentando aprender junto. Nesse processo e em tantos outros da vida dos nossos filhos, a gente erra mesmo, mas se existe amor envolvido, as dificuldades não necessariamente se transformam em traumas, elas podem passar e ser superadas. Bom, pelo menos é isso que digo para mim, quando acho que pisei muito na bola com meus filhos. Por que a verdade é que toda mãe pisa na bola. Mas sigamos em frente, sem maiores dramas. #nodramamom