A terceira foi Teresa

Respira fundo que esse post é longo.

Caí doente depois de um final de semana de farra no Recife. Fomos para o casamento da minha comadre, madrinha do João e na volta achava que tinha pego uma virose. Uma semana vomitando e sem forças para fazer nada, até que Pedro deu o diagnóstico: você está grávida.

Irene estava com 10 meses, mamando e eu tomava a pílula sempre que lembrava.

Fiz um exame de farmácia, meio nervosa e muito atrapalhada. Foi xixi para tudo quanto é lado e achei até que tinha estragado o teste, mas estavam lá: duas listrinhas vermelhas beeeeem clarinhas. Liguei para o médico, contei do teste de farmácia e ele me passou a primeira ultra, dizendo que teste de farmácia não dava falso positivo. Fui com uma amiga até o laboratório <3, pensando que todos (ainda) poderiam estar errados. Quando ela enfiou o aparelho de ultrassom, lá estava um bebezão todo lindo e formado. Tomamos um susto, pois pelo tamanho do feto, eu não poderia mais fazer exames endovaginais. Tive uma crise de riso e não conseguia processar todas aquelas informações:

 

  • 16 semanas, 14 cm e já dá até para ver o sexo. Quer saber? É menina.

 

Voltei no médico que tinha feito o parto da Irene. Como falei, ele era um cara legal e de fato, fez um procedimento menos agressivo que o primeiro médico. Começamos a falar e ele disse assim:

Dessa vez, nada de conversa sobre parto normal, hein? Você está proibida de entrar em trabalho de parto. É muito perigoso. Estou vendo aqui no calendário que ela completa 38 semanas dia 31 de dezembro. Vamos marcar logo o parto para a noite do reveillon.

Nessa hora eu fiquei muda, sem reação. Nos dois partos anteriores eu não tinha me sentido escolhendo uma cesárea. Era mais como se eu tivesse sido conduzida até a cirurgia. Mas daquela vez o médico estava sendo claro. Ele não me daria nem a chance de sentir o que era a dor do parto. Dentro de mim algo foi tocado. Entendi que aquilo estava errado. Que esse direito o médico não podia me tirar. Decidi, diante de um marido assustado, que iria procurar outro médico.

Cheguei até a Dra. Betina. Lembro da primeira consulta como se fosse hoje. Contei minha saga ate ali, chorando muito e falei da recomendação do médico. Ela ouvia tudo com aqueles olhos atentos. Perguntei o que ela achava e se ela recomendava que eu tivesse o parto normal. Ela disse que sim, sem muita firula. E eu perguntei:

- Mas eu posso morrer?

E ela respondeu

- Você pode sair daqui e ser atropelada. Todos nós vamos morrer um dia. Mas a conversa aqui é sobre nascer. Você pode ir até o fim na sua gravidez e eu estou aqui para isso. Como será o seu parto, eu não faço idéia. Ninguém faz. Mas a sua bebê tem o direito de nascer no dia que ela quiser e a gente está aqui para garantir esse direito. Você quer isso?

E jogou a bola para mim. E fez isso durante os 5 meses seguintes (lembrem-se que eu descobri a gravidez já com 4 meses!). Eu me tornei a protagonista da minha história naquele momento. A cada consulta, a conversa era sempre sobre o que eu queria, o que eu pensava. Depois de duas gravidezes, alguém finalmente me mostrou a anatomia do corpo feminino durante o crescimento do bebê. Entendi, depois de dois partos, a fantástica ação dos hormônios no corpo e no bebê. Estava claro pra mim o que aconteceria, cada etapa, porque doía e porque era tão melhor para a mãe e para a criança. A medida que ia me informando, ia me dando um frio na barriga. Queria tanto passar por tudo aquilo, que nunca deixei o medo de morrer nem chegar perto de mim.

Durante a gravidez também teve a presença fundamental da Maíra. Entendi o trabalho da doula e me entreguei. Com Maíra, era o afeto puro, forte, vigoroso. A cada consulta com ela, eu me sentia mais forte e preparada. Foi com a Maíra que aprendemos a usar o epinô. Eu e Pedro, juntos numa intimidade absurda e absoluta, fazendo a nossa parte para Teresa vir do melhor jeito possivel. Estávamos os dois no mesmo momento, aprendendo sobre nascer e aquilo foi incrível.

41 semanas e nada de Teresa vir. Tinha que fazer um exame e só consegui vaga no hospital. Quando cheguei lá, eles não queriam me deixar sair. Ficaram apavorados com a idade gestacional, diziam que era perigoso, que se eu saísse eles não se responsabilizariam. A Betina teve que vir me resgatar e assumir os riscos. Eu brinquei dizendo: “pode me liberar, que eu volto no final de semana para ter esse bebê aqui. Prometo.” Eu sabia que estava tudo bem, comigo e com a Teresa. Sabia que ainda não tinha chegado a hora dela. Era preciso esperar e respeitar.

E assim foi.

Betina me deu até a segunda-feira. Depois disso, a gravidez entraria num ponto que não é mais possível monitorar o bebê. Ela me disse para andar, namorar, fazer exercício, qualquer coisa para que o trabalho de parto tivesse inicio.

Acordei no sábado sentindo umas cólicas e sabia que era isso que deveria sentir. Peu ligou para a médica. Betina tinha acabado de chegar em uma cachoeira e disse para eu relaxar e ligar para ela, caso algo mudasse. Passei o sábado em casa, sentindo essa cólica, ora mais forte, ora leve, ora mais ritmada, ora desacelerada. João foi resgatado pelo melhor amigo e chamei uma babá para me ajudar com a Irene. Saí para almoçar no meu restaurante preferido com Peu, conversamos muito. Estava muito feliz e tranquila. Às 11 da noite as cólicas viraram contrações ritmadas e aí, eu liguei para doula.

O meu trabalho de parto foi suave. A medida que o tempo ia passando, as contrações iam aumentando, tudo muito sincronizado. Passei a noite deitada na minha cama, com Pedro do meu lado e a doula do outro. Eles iam me massageando e me encorajando. Um balé lindo de muito afeto e amor. Quando as dores começaram a aumentar, fiquei enjoada e vomitei. Aproveitei para tomar um banho, ficar debaixo da àgua um pouco. Minha mãe chegou no meio da madrugada e ter ela perto foi maravilhoso.

Quando o sol surgiu, pedi para ir para o hospital. Chegamos lá as 6:30 da manhã do domingo. Betina já estava lá com outra paciente. Ela me recebeu com um abraço forte. Eu disse que tava cansada e ela me disse: “cansa mesmo”.

Ela me botou numa bola de pilates, debaixo de um chuveiro quente. Quando eu sentei, senti uma dor forte e pontuda. Achei que não fosse aguentar ficar sentada, mas fui relaxando e administrando aquela dor. Nesse momento, fiquei só e em paz. Comecei a falar com a Teresa. Dizia a ela que a gente ia conseguir e falei o quanto estava feliz por viver aquele momento.

Depois de um tempo nessa bola, senti que precisava levantar. Fui para o quartinho de pré-parto e aí, o bicho pegou. Não conseguia mais sentar, nem deitar. Tinha que ficar em pé, apoiada em Pedro. A doula ia orientando a minha respiração e eu me senti absolutamente amada, respeitada e amparada naquele momento. A Betina se abaixou, estourou minha bolsa e depois disso eu não lembro de muita coisa. Veio uma dor diferente, um grito que saía do meu coração. Não tinha forças nas pernas e me segurava como podia no Pedro, até que Betina me avisa: A Teresa vai nascer.

Nesse momento foi como se tudo estivesse em pausa. A dor tinha mudado. Ela puxou uma banqueta e me mandou sentar. Trouxe um espelho grande e pediu que o Pedro fosse para trás de mim, para me segurar e me orientou: a próxima contração, você faz força.

Duas forças, um puta que pariu bem alto e a cabeça saiu. Eu olhava para o espelho e pegava na cabecinha dela, sem entender direito. Mais uma força e ela estava nos meus braços. Eu estava ali, forte, sem dor, segura. Me sentindo iluminada. Me achando foda. Fiquei curtindo um barato com Teresa no colo, em êxtase. A gente tinha conseguido.

Pedi um bife com batata frita e ficamos dando risada do meu palavreado na hora do parto. Parecia que tinha acabado de acontecer uma festa e que eu, Pedro, Betina e a doula estávamos terminando a última garrafa de vinho. A gente tava feliz, simplesmente. Eu não morri, não tive laceração, não precisei levar ponto. Teresa nasceu do jeito mais natural possível e eu agradeci. Agradeci por ter me permitido viver aquilo. Por ter tido coragem, por ter tido apoio, por ter tido maturidade.

Não me tornei a radical do parto normal, mas me incomoda a violência nessa relação médico/paciente. Me incomoda a falta de informação generalizada, a quase ignorância sobre o assunto, me incomoda a preguiça das mulheres em encarar seus partos e tratá-los como um evento social, com data marcada e hora certa. Mas é preciso ter respeito mesmo e principalmente com quem pensa diferente da gente. #nodramamom