Diferente de mim e de você

 

 

Eu tinha menos de 3 anos quando estudei no Recanto Infantil, no Recife. Obviamente lembro de pouquíssima coisa dessa época, mas nunca vou me esquecer de Luciana. Ela tinha Síndrome de Down e a gente adorava comer a massinha da escola, feita de farinha de trigo, sal e anilina. Essa menina marcou aquele tempo da minha vida com seu cabelão e o riso fácil.

Corta.

Estamos em Barbacena e na sala de Irene, minha filha do meio, estuda Isabela Maria, que tem a mesma síndrome. Irene e Isabela são amigas e é lindo de ver o carinho que existe entre essas duas pequenas.

A mãe de Isabela Maria foi a única mãe que nos convidou até agora para fazer um programa fora da escola. Para o dia das crianças ela preparou com a equipe da sua ONG (Olhar Down) algumas atividades especiais e nós estávamos lá, completamente emocionados.

A maternidade é tão idealizada o tempo todo que quando os filhos nascem diferentes dos modelos esperados, o chão se abre e mães são engolidas por um buraco negro de emoções. Voltar desse lugar é um processo doloroso e difícil, superado pela enorme vontade de ver o filho que acabou de chegar, ser feliz e principalmente, ser aceito.

Semana passada convidamos Sâmila e Bela Maria para virem aqui em casa depois da aula. As meninas brincaram durante duas horas e foi uma delícia. Mais tarde, recebi uma mensagem dessa mãe coragem, me agradecendo. Suas palavras me tocaram profundamente e fiquei pensando muito nela.

Ser mãe é transformador, mas ser mãe de uma criança especial faz com que essa transformação toque mais pessoas, sensibilize também quem está ao redor. É como se todos tivessem uma oportunidade divina de se transformar junto com aquela mãe e aquela criança. Tem a ver com doação, com afeto, com amor.

E o mais incrível é ver como as diferenças são percebidas e absorvidas pelas crianças de forma absolutamente natural, sem questionamentos. Conviver com quem não é exatamente igual a gente (e aqui vale tudo: cor, tipo de cabelo, sexo, religião, formação) é o jeito mais bacana de aprender a respeitar o outro.

Obrigada Bebela, por dar à minha familia esse presente que é conviver com você de pertinho. Sem nem saber ainda, você está fazendo uma grande diferença em nossas vidas. #nodramamom