Construir memórias

Sou filha de uma mãe muito jovem, que não tinha um casamento estável e, portanto, não dividia as responsabilidades da minha criação com ninguém. Ela tinha 18 anos quando eu nasci. Sem pai por perto, éramos nós duas, até que com 5 anos chegou uma irmã para animar a festa.

Minha infânica é um lugar que acesso com carinho. Lembro muito dos meus avós, sempre por perto. Com meu avô a brincadeira era de menino: passar espuma no rosto para fazer a barba, ir até o açougue no sábado e esperar ele tomar a cerveja do dia e papear com os amigos, ir ao aeroporto ver os aviões decolarem. Com minha avó, a conversa era na cozinha e até hoje amo comida de milho por uma questão afetiva. Lembro muito da Xuxa e dos desenhos. Lembro de algumas professoras sorridentes e de brincadeiras na escola. Lembro da aula de artes e do balé, que eu fazia sem muito entusiasmo, mas achando lindo o figurino.

Durante muito tempo (na minha cebeça foi tipo toda minha infânica, o que dá aproximadamente 2 anos na realidade), minha mãe não trabalhava à tarde e a gente sempre saía para fazer lanches. Tinha glúten, lactose e fritura à vontade, porque nessa época o que importava mesmo era estar junto. Lembro de acompanhá-la na universidade à noite. Eu devia ter uns 6 anos e achava aquilo simplesmente o máximo. Outra coisa que marcou esse tempo da minha vida foi a praia. Era sem dúvida, o meu programa preferido (e ainda é). Tento buscar memórias ruins, mas elas são secundárias. No entanto, tenho certeza que se for perguntar para minha mãe, ela vai me relatar momentos difíceis, de confusão, de dor, de solidão. Ela provavelmente vai me falar de como ela se sentia cansada e queria dormir no domingo até às 11, mas tinha que acordar cedo para cuidar da gente. Ela vai me falar sobre culpa, sobre achar que não ia dar conta. Vai me falar sobre choros escondidos e frustrações. Mas sabe de uma coisa? Essas são as memórias dela. Na criança, quando cresce cercada de amor, é esse sentimento que prevalece. É isso que importa.

Nesse dia das crianças reafirmo minha convicção no amor, na família (seja ela qual for e como for) e na presença, muito mais do que no presente. #nodramamom