Sonhando acordada

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O que tem te segurado, feito você adiar seus planos, sonhos e projetos? Eu sei que além das coisas tangíveis (filhos, emprego, casamento, dinheiro), existem as intangíveis e quer saber de uma coisa? Essas, apesar da gente nem conseguir tocar nelas, podem ser muito mais poderosas e nos prenderem muito mais.

Em algum momento da nossa vida, a gente veste uma carapuça de que não somos suficientemente boas por alguma razão. Pode ser o peso, o sotaque, pode ser porque faltou um diploma ou a certeza de que o tempo já passou e você agora “não tem mais idade”. Os motivos podem ser tantos! E eles são absolutamente reais dentro da gente. Tanto que nos impedem de seguir adiante.

Para que eu comece a realizar meu grande sonho, falta claramente um diploma. É como se apenas após 5 anos de estudo eu fosse capaz de cuidar de mulheres. Dessa forma, eu estou o tempo todo buscando só mais um curso, mais aquela formação, aquele workshop. E assim, eu sigo adiando o meu plano de dominação mundial e vou me afundando na minha zona de conforto, que cá entre nós, nem é tão confortável assim.

Mas a grande verdade é que todos os dias eu escuto mulheres. E converso com elas e doou meu tempo a elas. E sei que cuido de muitas delas. Ofereço aquilo que posso: meu colo, meus ouvidos, minha rede. Tenho ao longo do tempo colecionado momentos onde vivi esse cuidado, fiz ele acontecer. Então, o que falta? Falta eu me dar crédito por isso. Falta eu acreditar nisso com tanta verdade, que isso se torne algo real, para mim e para quem precisar de mim. E você, que verdade está precisando contar para si mesma?

A nova eu, de roupa nova.

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Claro que passei por aquela fase de não me reconhecer depois da chegada de um filho. De olhar para meu guarda-roupa e não entender certas peças que estavam ali penduradas, de me sentir estranha em tudo o que vestia. Já passei também pela fase de não querer vestir nada e sonhar com o caminhão do Faustão fashion edition. Já tive momentos de me largar tanto que o pijama se transformou na minha peça preferida e usar o mesmo por dias a fio era absolutamente normal. Depois disso, evoluí para usar exaustivamente roupas de parquinho para todas as ocasiões, o que me dava conforto e liberdade de movimentos, fundamental para quem pratica agachamento fora da academia e carregamento de crianças em curta distância.

Hoje, depois de 4 filhos, esse caminhar me parece menos pesado. Já entendi que todas essas fases fazem parte do florescer materno e que o melhor é não lutar ou se angustiar. Quando abrimos mão da vaidade, do estar bem vestida ou arrumada, não estamos nos deixando de lado. Estamos apenas mergulhadas em um momento onde nós não somos mais tão protagonistas assim. E tudo bem. Em algum momento, logo ali a diante, iniciaremos nosso resgate. Pode demorar mais para uma do que para outras, mas ele acontece. A grande surpresa é que nem sempre vamos reencontrar a mulher que deixamos para trás antes da barriga crescer e do bebê nascer. Estaremos mudadas. Para melhor.

Hora de começar

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Hoje é segunda-feira, dia mundial de começar algo. A minha lista de coisas que eu desejo começar está beirando o inatingível e eu resolvi tomar vergonha na cara. Quando a gente quer que algo aconteça ou mude, não tem muito mistério, é só começar. Não é necessariamente fácil, mas é simples. Mas então por que a gente coloca tanta dificuldade? De onde vem essa mania de se sabotar, de achar que não é possível, que não dá conta ou não dá tempo?

Tenho pensando muito sobre os meus desejos de mudança, aquilo que quero para mim, independente dos meus filhos, do meu marido, da minha casa. Aquilo que é só meu. Percebi que nunca estou em primeiro lugar na minha lista de afazeres. As demandas de todos ao meu redor vem antes da minha, como algo natural. E sabe por que? Porque é mais fácil fazer pelos outros do que por mim. É mais fácil cuidar dos outros do que de mim. E assim, os meus planos e vontades vão ficando para uma outra hora, um outro dia, próximo ano.

Fazer coisas por nós mesmo precisa ser entendido como um autocuidado. E eu não estou falando de ir na academia ou fazer as unhas. É mais. Se cuidar, tem a ver com se ouvir. Saber o que você quer e para onde apontam seus passos. Estamos indo na direção certa? Só vamos saber se tivermos um destino, um lugar aonde queremos chegar. Então, para nós, cuidadoras de todo mundo, deixo duas perguntas: qual o seu sonho e o que você está fazendo por ele?

Minhas imperfeições

Ao me tornar mãe, iniciei uma peregrinação por dentro de mim. Olhar com muita sinceridade para quem eu era até ali, me permitiu descobrir cantos escondidos, atalhos até o coração, retalhos de outras mulheres. Me abri para a desconhecida eu e assim, sem grandes expectativas, fomos nos tornando íntimas. Hoje, nove anos depois do início desse caminhar, encontro uma Luanda segura, equilibrada emocionalmente, mas que ainda cai na armadilha de tentar ser a mãe perfeita.

A amamentação de Joaquim foi um grande desafio desde o início. Nunca havia sentido tanta dor. Nunca havia me sentido tão fracassada e tão forte ao mesmo tempo. Tive, durante 29 dias, as melhores pessoas ao meu lado, me orientando, segurando minha mão, secando minhas lágrimas. A montanha russa de sentimentos me fazia querer desistir e continuar tentando em intervalos de minutos. E entre o “dá logo uma mamadeira” e o “aguenta firme que vai passar”, eu escolhi a segunda opção. E assim, como num passe de mágicas, as dores passaram e amamentar se tornou algo prazeroso.

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Mas acontece que dar de mamar não é só oferecer o peito. Amamentar é estar disponível, inteira. E infelizmente, eu não estava, não estou. Luanda, mãe de Joaquim, é também mãe de outras três crianças, com demandas emocionais, físicas e espaciais, que precisam e são atendidas por mim. Para Joaquim, eu sou apenas um quarto de Lua, da sessão filhos. Isso quer dizer que nem sempre eu consigo. Sim, depois de toda aquela batalha pelo peito, eu me rendi a mamadeira e ao leite artificial. Joaquim mama no peito quando eu estou presente. Quando eu estou inteira para ele, nos outros momentos, ele toma mamadeira.

Aceitar isso não foi fácil. A mamadeira é sim uma inimiga da mãe que deseja amamentar com exclusividade e por muito tempo. E no meu ideal de mãe perfeita ela nem entrava na lista de enxoval. Ser mãe pela quarta vez foi mais um convite a olhar para dentro, a me redescobrir. E diante de cada situação que me chega, eu tento entender o que está por trás, qual o ensinamento e a grande lição que eu preciso aprender. Ser mãe de quatro crianças me mostra, todos os dias que mães perfeitas não existem. Ainda bem.

Amar é direito

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Sou mãe de meninos e meninas com diferentes idades e, por isso, cada assunto é tratado com diferentes abordagens. Em comum, independente da idade, existe a premissa que nossos filhos são capazes de entender muito mais do que conseguimos explicar. Por isso a conversa é reta, direta. Com 4 filhos vocês podem imaginar a quantidade de assuntos que surgem em um simples café da manhã. Eu e Pedro estudamos, inclusive, a possibilidade de distribuição de senha, para garantir que todos consigam falar. Nos trendtopics das pautas, amor é assunto recorrente. Meus filhos observam diariamente um casal formado por um homem e uma mulher e essa poderia ser a única verdade para eles. Mas não é. E nós fazemos questão de que não seja. E como a gente faz isso? Normalizando todas as formas de amor, falando e tratando com naturalidade aquilo que é deferente de nós. Em Brasília temos poucos amigos gays que frequentam nossa casa, infelizmente. Então, o que nos resta é aproveitar os assuntos que vem das próprias crianças. 

Princesas por exemplo: casam com que quiser. Podem casar com príncipe, com outra princesa e claro, podem nem casar, se elas assim o quiserem. O mesmo vale para as bonecas, para as brincadeiras de casinha, para as relações quando eles crescerem. Quando João arrumar uma namorada ou namorado, ele vai precisar ser honesto, cuidadoso e gentil, sempre. E isso é dito, com todas as letras, sem melindres. Bichos, bruxas, fadas, meninas, meninos, não importa: cada um namora com quem quiser.

 

Esse é um jeito de ensinar respeito aos meus filhos. De fazer eles, mesmo pequenos, perceberem que não existe certo e errado quando a escolha é do coração. E que as escolhas deles serão sempre acolhidas por nós. 

Assim, a gente vai resistindo. Assim a gente vai acreditando que apesar de tantos retrocessos, as próximas gerações serão melhores do que nós. Só assim. Viva o amor. Viva a liberdade de amar. #amarédireito

Crianças que são crianças

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Acreditem: elas não são fofas. São meninas cheias de personalidade, que brincam muito e brigam também. Elas demandam atenção e fazem birra. Choram quando estão cansadas, choram quando estão frustradas.

Elas não são criativas. O que é ser criativo, afinal? Elas são crianças estimuladas a serem crianças. Não são mais espertas do que nenhuma outra menina da idade delas. Elas são carinhosas sim, porque e só porque recebem muito amor, todos os dias. Elas são levadas à sério e são estimuladas a dialogarem para conseguir o que querem. Elas gostariam de fazer balé, mas enquanto não é possível, criamos aulas imaginárias, dançamos na sala de casa. Elas queriam ter todas as bonecas da vitrine das lojas e para lutar contra isso, não vamos ao shopping, porque shopping não é lugar de passear. Damos preferência aos parques. Elas gostariam de ir na Disney, mas tá tudo bem se a gente for aqui pertinho, em Pirenópolis. Tem dias que elas querem ser princesas e brincam de casar, de família. Tem dias que a brincadeira é uma aventura no deserto e elas precisam salvar quem está em perigo. E assim, elas vão explorando e bagunçando a casa toda, com a promessa que tem que arrumar depois. E elas arrumam. Nem que seja na marra. Irene e Teresa, apesar dos 40 segundos dos Stories não mostrarem, podem ser enlouquecedoras, gritam são e até chatinhas, sabe por que? Porque elas são só crianças. Ainda bem

O roteiro e a rotina

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Receitas para fazer bebês dormir a noite toda são fáceis de achar. Existem métodos testados e aprovados mundo a fora e histórias de sucesso diante dos piores casos. Mães desesperadas compram livros, assistem cursos online, trocam informações em seus grupos de WhatsApp. Elas estão cansadas e fazendo qualquer negócio por 6 horas seguidas de um bom sono. Entre as técnicas, poucas variações e uma regra em comum: rotina. O bebê vai aprender a dormir se tiver uma linda e tranquila rotina. 

Acontece que ter rotina é o mundo ideal. Nesse mundo ideal imprevistos não acontecem, finais de semana são iguais aos dias de semana (que chato isso), os filhos são sempre únicos e a vida segue um script infalível. 

Rotina é importante, mas não pode ser prisão. Se você está aí aos trancos e barrancos tentando criar ou impor uma rotina para seu bebê, te mando meu abraço. Estamos juntas. Tem dias que rola e a gente vibra, tem dias que é um caos e a gente se desespera. Antes de querer seguir fielmente qualquer dica, lição ou metodologia, tente conhecer seu bebê, entender a dinâmica da sua vida. Aceite o que cabe no seu estilo, descarte o que não cabe. Por aqui, tem um bebê que dorme quando as irmãs deixam. Dorme enquanto a mãe tenta escrever um texto. E assim, a vida vai acontecendo. Sem roteiro e com a rotina que dá

Vai ter criança

Ter quatro filhos não é troféu. Não me dá diploma de mãe, nem carteirinha de um clube especial. Não me eleva a uma categoria melhor, não é minha profissão. Mas ter quatro filhos me coloca sim num lugar de empatia que dificilmente outra experiência me traria. Para conviver com crianças é preciso exercitar o amor na sua forma mais crua. Talvez por isso a onda de pessoas que não querem crianças por perto esteja ganhando espaço. Amar é difícil. Ser empático com uma criatura de que chora, grita, faz birra, é difícil. Mas o mundo não vai ter jeito se a gente não cuidar das crianças.

Tive quatro filhos e cuidar deles bem de perto é o meu jeito de transformar o mundo. É um trabalho braçal, que me exige muito emocionalmente, porque só posso fazer isso em equilíbrio. Só posso cuidar deles, se cuidar de mim. 

Se uma pessoa ou um lugar evita a presença de crianças, há de se admitir o desequilíbrio emocional, a dor da crianças interior, a falta de amor, de humanidade. Ninguém precisa gostar de crianças ou querer ter filhos, mas sem crianças o que nos resta é a morte do mundo, da esperança de dias melhores. E isso tá errado, não pode ser. 

O amor precisa ser maior do que o ódio. O amor precisa ser maior do que o preconceito, o amor precisa ser maior. E se depender de mim, vai ter crianças sim.

O quarto elemento

Lembro da chegada de Irene e do impacto que isso teve no João, até então, filho único. Ele tinha 4 anos e dividir a mãe, o pai e o espaço, obviamente não foi fácil. A mudança se apresentou em forma de choro, que surgia sem motivo aparente. Lembro também da minha necessidade que ele crescesse. Eu precisava que ele não precisasse mais tanto de mim, que se virasse, ficasse mais independente. Esse meu desejo com certeza empurrou meu filho pra frente, mesmo causando certa dor para ele. Sim, mães causam dor e não tem como escapar disso. Um salve para psicólogos, terapeutas e psiquiatras!

Quando Teresa nasceu, essa bagunça sentimental me pareceu menor. (Posso descobrir daqui há alguns anos que essa foi apenas a minha impressão e que para João e Irene foi foda, mas hoje não é assim que vejo). Acho que os dois ficaram bem com a chegada de mais um integrante na família. Irene passou de caçula para irmã do meio muito rápido, sem chances ou maturidade para processar aquela perda. Eu tinha em casa dois bebês de fralda e isso foi muito cansativo, mas foi e é lindo ver a relação das duas. É lindo também ver João construindo as pontes com as irmãs, dentro do seu tempo.

Joaquim chegou sem poder exigir muita coisa mas me mostrou a enorme capacidade de acolher e amar que seus irmãos têm. João, Irene e Teresa receberam o irmão de coração tão aberto, que emociona. Ver eles bem, equilibrados emocionalmente, me fortalece. Claro que isso não me livra de choros e birras, mas no geral, percebo que esse quarto elementinho trouxe uma cola, um grude ainda maior entre nós e isso é reconfortante, diante do caos natural que é a vida com 4 crianças. Que bom, Joaquim. Que bom. #nodramamom

Vejo a luz

Não importa o tipo de parto que você teve, a mãe que você planejou ser, a alimentação que você pratica. Não importa o quanto você estudou, se fez exercícios na gestação, se controlou o peso ou se esqueceu da balança. Não importa se você fez enxoval em Miami, tem parceiro ou parceira bacana, se é primeiro, terceiro ou quarto filho: o puerpério chega para todas.

Esse período pós-nascimento vem cercado de muitos sentimentos, dores, dúvidas, angústias, solidão. É mais intenso para umas, mais complicado para outras e pode ser também que passe sem muitos sobressaltos. Mas uma choradinha em baixo do chuveiro quente eu garanto que vai rolar.

É um momento de recolhimento, onde a cabeça parece estar desconectada do mundo e você funcionando em uma outra velocidade. Em 24 horas tudo pode acontecer, inclusive nada. Você pode acordar super bem, disposta e animada e ao longo do dia, ser tragada por uma melancolia gigantesca, que te faz acreditar que nunca mais a sua vida será como antes e você será para sempre aquele ser meio disforme e totalmente sem energia. Aí, algumas horas depois isso passa, você se tranquiliza, olha para o seu bebê como se ele fosse um ser mágico e se derrete de amor.

Pode acontecer também do choro chegar sem anunciar e te acompanhar a cada passo. Pode acontecer do medo te dominar e você ter certeza que não nasceu para ser mãe. Pode acontecer do ar faltar e você não entender como te deixaram sair da maternidade com uma criança tão pequena nos braços.

Seja qual for o seu cenário e a sua realidade, o mais importante de tudo, é lembrar de respirar fundo e entender que o puerpério passa. A luz no fim do túnel é forte e brilhante e te levará para um lugar novo, cheio de coragem. Ao final dessa bagunça emocional acontece um encontro de você antes com você depois do bebê e essa descoberta de quem você se tornou é maravilhosa. #nodramamom

Chorando e mamando

A maternidade desperta em nós um espírito competitivo, algo meio primitivo, que não dá para ser explicado racionalmente. Nos tornamos nossas próprias adversárias e entramos em guerra contra nós mesmas. 

Nessa minha primeira semana como mãe do Joaquim, meu quarto filho, encaro um novo desafio: ensinar o meu bebê a mamar, a abrir a boca do jeito certo, a posicionar sua língua em baixo do meu peito, caso contrário, corro o risco de ter meu mamilo arrancado fora. E se nesse momento você fechou o olho e sentiu minha dor, sinta novamente, porque é a pior dor que já senti. Esqueça a dor do parto - seja ele qual for. A dor de uma pega errada e de um mamilo ferido é indescritível. 

Nesses 8 dias eu já pensei em desistir algumas vezes, simplesmente por não entender a razão para tanto sofrimento. Mas aí, sou arrebatada por minhas crenças e tudo passa. Até a próxima mamada. E assim, está estabelecida uma relação de competição entre a dor e a vontade de superar essa barreira. Entre a praticidade de uma mamadeira e a minha falta de maturidade para lidar com a culpa. 

Fato é que não existem culpados. Não existe melhor ou pior decisão. Não existe melhor ou pior mãe. Qualquer mulher que passa por uma situação em que não pode, não consegue amamentar ou não quer amamentar, precisa não do nosso julgamento, mas de um abraço bem apertado e de pessoas dispostas a ajudar. 

Por aqui, sigo tentando, entre muito choro, pomada e ordenha, até o meu limite, repetindo o mantra: vai passar.

Nasceu

Não deu tempo. Não deu tempo de encher banheira, afastar a cama, montar o equipamento. Não deu tempo de pegar a câmera e nem de acender velas. Na verdade, quase não dá tempo da doula e das parteiras chegarem. Quase, quase mesmo que Joaquim nasce só na presença de Pedro. 

Na quinta-feira eu fiz yoga no parque e à tarde fui na acupuntura, busquei João no futebol e a vida seguia normal. 

Demos banho nas meninas, sentamos para jantar e eu comecei a sentir algo diferente. Eram 8:30 quando anunciei que as cólicas estavam fortes e que eu achava que Joaquim podia nascer naquela madrugada. Mandei mensagem para a equipe (doula e parteiras), fui tomar banho e Pedro foi botar as meninas para dormir. Sentia que a cólica estava forte e pensava na logística do parto: tinha que afastar a cama, encher a banheira, acender velas, pegar a câmera. Fiquei debaixo água, vocalizando e sentindo tudo aquilo. Até que: bolsa estoura. Chamei Pedro e pedi para avisar no grupo. Eram 9:30. Ele avisou e ficamos juntos. A dor veio forte e eu me apoiava nele. Até que: tampão. Tira foto e manda no grupo. Mais dor. Olhei para Peu e disse que estava muito forte, mais do que no parto da Teresa. Ele me dizia para respirar e que tava tudo bem. Mais dor. Voltei para a água. Respira. Vocaliza. Respira. Senti frio, quis sair da água. Vou para cama e me deito de lado. Dor de expulsar, empurrar. Olhei para Pedro e disse: vai nascer. Fechei os olhos e tive medo. Sabia que aquela dor era o final, mas como, se tinha acabado de começar? Entreguei. Aceitei. Confiei. Empurrei. Vi que a equipe chegou. Estava segura. Estava tudo bem. Joaquim ia nascer. Vem, filho. Silêncio, pouca luz. Vontade de fazer força. Muita força. Coroou. Saiu a cabeça. Na próxima. Nasceu. Eram 22:48 e eu agradeci. Tinha renascido. Estava tranquila e as crianças continuavam dormindo. Um bebê no colo, uma equipe incrível e um marido foda ao lado. A vida é boa e parir é mágico. 

Chá de amor

A preguiça e o cansaço falaram mais alto e eu desencanei da função do chá de fraldas. Mesmo querendo fazer algo pequeno, a lista estava com quase 100 pessoas e, pensando que Joaquim podia ganhar até fralda geriátrica, achei melhor desistir. Em troca, ganhei um chá de bênção. Esse evento é um encontro entre mulheres, uma reunião pelo sagrado feminino, para que juntas, expressem os desejos por aquele que vai chegar e também por aquela que vai parir. É uma dose de ocitocina pouco antes do parto. E se você nesse momento pensou em algo muito hippie, repense. O chá de benção é antes de qualquer coisa, uma pausa. Um momento dedicado ao gestar, um carinho, um abraço. Não importam fraldas, não importa decoração, docinhos ou lembrancinhas. Cada uma das convidadas deve levar apenas suas intenções. E isso é lindo e muito poderoso. É uma volta ao que interessa, a valores do feminino muito, muito importantes, que a gente insiste em deixar de lado. Esse resgate me fortaleceu, me trouxe paz e muitas lágrimas, claro. 

Foi bonito ouvir sobre a ligação daquelas mulheres comigo, foi importante sentir o amor delas pelo meu filho, foi importante receber suas bênçãos. Cada uma deixou comigo algo que pode me acompanhar no parto, algo que me trará conforto, força e tranquilidade. Agora, são só mais alguns dias, até Joaquim chegar e ele já chega cercado de boas energias

Só li verdades

15 verdades sobre a gravidez que ninguém te conta:

 

  1. Não importa o seu grau de madamice, você vai andar de perna aberta.

  2. Sua pepeca vai ficar parecendo um sapo gorducho. Se você tiver um parto normal, essa situação piora, mas o corpo é sabio e (JURO) tudo volta ao seu devido lugar.

  3. A barriga fica MUITO esquisita depois que o bebê sai. Seja gentil com você e não se apegue a isso.

  4. Peitos: dar de mamar pode ser tão difícil quanto parir. Se você perceber que não está conseguindo, peça ajuda e esqueça aquela foto em tons pastel da mãe sorrindo segurando o bebê no peito. Aquilo é propaganda.

  5. Cesáreas salvam vidas e são uma evolução da medicina, no entanto, é uma CIRURGIA. Vão cortar umas 7 camadas suas, retirar um bebê, que nem sempre está pronto para nascer e depois te costurar. Parem de achar que isso não é perigoso, parem de achar que isso é normal. Normal é menino sair pela pepeca

  6. Parto normal: vamos tomar um café e conversar ao vivo sobre isso?

  7. Azia. Minha nossa senhora, que negócio ruim. Em resumo é uma labareda que vai do esófago até bem próximo a garganta e sempre que você fala sobre o assunto, tem alguém com uma receita mi-la-gro-sa.

  8. Não existe barriga de menino e barriga de menina, mas é importante respeitar a crendice popular, então, não se irrite.

  9. Outro ponto sobre peitos: eles vão ficar escuros. Isso não é feio ou bonito, é natural. O sovaco também pode ficar mais escuro, assim como seus lábios. Uma linha preta dividindo sua barriga é um outro sinal natural da gravidez, mesmo que nenhuma famosa tenha mostrado essa parte da história.

  10. A medida que a barriga cresce, o simples ato de dormir se transforma em algo difícílimo. Virar de um lado para o outro é quase uma tortura chinesa.

  11. Bebês soluçam na barriga e isso é muito esquisito, causando certa aflição.

  12. Hormônios: podíamos chamá-los de demônios também, porque olha...A variação de hormônios é algo enlouquecedor e nos coloca numa montanha russa ou num estado próximo da bipolaridade. Tudo é grande e intenso e a única solução para isso é respirar corretamente.

  13. A gravidez pode te trazer a energia de um touro ou a lerdeza de uma tartaruga. É uma loteria, ou seja, você não decide.

  14. Nem toda grávida consegue desenvolver uma comunicação direta com a barriga. Não se culpe, pois a brincadeira começa do lado de fora mesmo.

  15. Agora vem a coisa mais louca: cada gravidez é de um jeito. É preciso respeitar a gravidez alheia, acolher cada sentimento e tentar encontrar (no meio desse carnaval) momentos de paz, para que a cabeça não pire e o coração respire

Saideira

Sábado passado, do alto das minhas 38 semanas de gravidez, ganhamos um vale night da sogra e fomos a uma festa. As crianças iriam dormir com ela e o nosso compromisso era aproveitar, se divertir, dançar. Eu e Pedro nos conhecemos num show. Eu tinha 15 anos e de lá pra cá, já contabilizamos muitas farras. É verdade que o volume desse tipo de evento sofreu forte queda nos últimos 8 anos, mas sempre que a gente pode, lá estamos nós, descendo uma ladeira no carnaval de Olinda, curtindo um show, dançando em uma festa.

Ficamos até as 4 da manhã entre a pista de dança, o bar e as conversas com os amigos. Dormimos sem o medo de ser acordado e isso realmente faz toda diferença. Mas antes do meio dia já estávamos com os filhos de baixo da asa, prontos para a programação deles, que incluia nadar no lago e deixar por lá a ressaquinha de uma noite de pouco sono. Confesso aqui bem baixinho, que achei estranhíssmo acordar sem eles pulando em cima de mim, mas aproveitei aquele momento. Aproveitei porque eles são raros, porque meu pique já não é mais o mesmo, mas principalmente porque eu não vivo com saudade do que era a minha vida antes das crianças. Eu olho para aquele passado e eu amo lembrar como era, mas sem saudosismo. O tempo passa e as prioridades mudam mesmo. Isso não é abdicar da sua vida, mas sim, encarar com mais leveza as novas etapas que vão surgindo. Por hora meus filhos são pequenos, mas logo isso muda e vem outra fase. E depois outra e outra e outra. Estar atenta a essas transformações e abraçar o que cada uma delas trás, nos permite viver a vida de forma mais plena. Ou, apenas enjoy the ride. #nodramamom

ouvir > falar

A internet materna é uma grande fogueira das vaidades. As mães, orgulhosas de seus feitos, transformam experiências em verdades absolutas e vendem fórmulas de educação, boas condutas, alimentação saudável, relacionamentos e por aí vai. 

Se gabam pelo "bom trabalho" como mãe e ganham seguidoras fiéis querendo ou precisando de manuais de instrução sobre como criar filhos. A cada texto, uma dica, um jeito de fazer, uma regra infalível para lidar com situações delicadas. Sobram argumentos, mas falta empatia. É isso vale para todos os tipos de mães, de todos os tipos de tribo. 

Estou no barco das redes sociais há algum tempo. Já fui e já voltei, mas confesso que gosto dessa janelinha aqui. Gosto principalmente porque recebo muito amor em troca. Muito mesmo. E acho que de alguma maneira, depois de 4 gestações, eu entendi que as fórmulas mágicas não aliviam tensões. Que a criação dos filhos não pode obedecer manuais e que isso são pequenas prisões. Melhor do que dizer como fazer para resolver problemas de birra, é perguntar como vai essa mãe. O que ela tem feito, como estão as coisas. E antes de dar um conselho, um pitaco, apenas ouça, segura a mão. Pode ser algo transformador. #nodramamom 

Você está pronta?

Encontrei com um amigo que diante do meu barrigão, perguntou: E aí? Pronta? E eu, mãe de três, respondi sem titubear: claro! Nos despedimos mas ele deixou aquela pergunta reverberando dentro de mim. 

Fiquei pensando na loucura que é a chegada de um bebê, no caos em que a vida se transforma. E a real é que não sei se estou pronta. 

Definitivamente não estou pronta para o parto. Esse inesperado evento que acontece sem ensaios e que é diferente para cada filho que a pessoa tenha e por mais que a gente se prepare, pronta mesmo ninguém estar. Não estou pronta para  enfrentar a nova logística, que se apresentará sem planejamento. Não estou pronta para encarar as lacunas emocionais dos meus filhos, que com a chegada de mais um, vão precisar muito da mãe - esse momento de nutrir e ser nutrida é sempre confuso para mim. Não estou pronta para as novas olheiras e rugas que surgirão. Não estou pronta para o cansaço, não estou pronta para as noites em claro. 

No entanto, diante dessas constatações, eu me sinto muito tranquila. Muito mesmo. Tranquila para receber esse bebê, para amamentar, para pedir ajuda para mim e dar colo para os meus. Tranquila para enfrentar esse tsunami, tranquila para deixar essa onda me molhar. 

O novo conto do vigário

Alguém com muito tempo livre disse que "quando nasce uma mãe, nasce uma empreendedora". A partir daí, ter seu próprio negócio se tornou a tábua de salvação para aquelas mães que não conseguiam voltar ao mercado de trabalho e queriam mais tempo com seus pequenos. Empreender parecia a receita mágica para equilibrar trabalho e qualidade de vida, horários flexíveis com a demanda das crianças, se re-descobrir profissionalmente e também exercer o papel de mãe com mais dedicação e ainda ganhar dinheiro. 

Afinal de contas, uma mãe consegue dar conta de tudo, certo? 

Errado, minha amiga. Muito errado. 

Quem decide abrir o próprio negócio entende rapidamente que sem dedicação (de tempo mais do que de dinheiro, muitas vezes), as coisas não funcionam. Um sentimento muito natural entre essas mães é que elas estão trabalhando muito mais do que antes. E estão. 

O negócio próprio precisa ser encarado como um trabalho normal, o qual toma pelo menos 6 horas do seu dia. Mas o que geralmente acontece é que nesse período, além de trabalhar, a gente quer também brincar com o filho, fazer almoço, dar banho, botar para cochilar. Mas é impossível dar certo? Não, nada é. Mas não é fácil como alguns insistem em dizer. 

A possibilidade de criar algo seu, é um grande privilégio e ele não precisa ter nada a ver com o universo infantil. 

Então, se você está pensando em largar tudo para empreender depois que seu filho nascer, acredite: você vai precisar de tempo. Você vai precisar de ajuda. Saber disso é fundamental para que o coração fique mais tranquilo. Entender do que você pode abrir mão também ajuda. Muitas vezes a tal flexibilidade de horários tão sonhada, significa menos ou nenhum dinheiro no fim do mês. E aí, tudo bem por você? 

Não caia no conto do empreendedorismo materno sem se questionar. Se quiser empreender, vá fundo. Mas saiba que o caminho é longo e a estrada é difícil. #nodramamom 

A diferença entre ser e estar

Ter filhos é a chance de observar os diferentes padrões de comportamento das pessoinhas e assimilar, com mais facilidade, que ninguém é igual a ninguém. Na teoria a gente já sabe disso, mas na hora de respeitar essas individualidades, é que enfrentamos os nossos preconceitos e dificuldades como pais. Como se não bastassem nossos padrões, ainda buscamos atingir os padrões da sociedade e aí, surgem as frustrações e os rótulos.

A criança que chora, a criança aventureira, a criança que bate, a que morde, a que divide, a que come bem, a que dorme a noite toda, a educada, a tímida. Não colocar nossas crianças em uma ou mais dessas caixas é algo difícílimo, simplesmente porque não entendemos os problemas que existem em falar ou ressaltar o que acreditamos ser características dos nossos filhos. Esquecemos que eles não são, eles estão. Crianças são moldes moles, abertas, livres. Quando a gente insiste em dizer que eles são assim ou assado, estamos tirando deles a chance de serem o que eles quiserem. Se a gente ampliar esse pensamento, temos a possibilidade real de criamos adultos mais fortes, seguros, tolerantes e menos preconceituosos.

Imagina uma criança crescer ouvindo que tudo bem ela ter a profissão que ela escolher? Que tudo bem ela chorar quando estiver triste? Ou que tudo bem ela ter medo. Para a criança que bate, o que será que ela está querendo te mostrar e como você pode através da firmeza e do amor ajudá-la? Imagina uma criança crescer ouvindo que tudo bem menino namorar com menino ou menina namorar com menina? Imagina uma criança crescer ouvindo que não existe coisa de menino e coisa de menina? Imagina uma criança crescer sendo amparada e acolhida em todas as suas fases e dificuldades ao invés de ter sempre o dedo apontando o que ela fez de errado? Imagina a gente não se gabar das facilidades e esconder os conflitos que enfrentamos com nossos filhos?

Nenhuma criança é perfeita. Nenhuma criança vai atender a todas suas expectativas. Você vai enfrentar momentos mais tranquilos e turbulências gigantes quando resolver ser pai e mãe. E não, eu não estou falando dos da montanha russa do primeiro ano. Estou falando dos problemas daqueles que decidem criar e educar crianças. Não é fácil. É extremamente desafiador, todos os dias. E a tal da recompensa? Bom, quando eu chegar ao fim do arco-íris, eu conto para vocês. Por enquanto, me satisfaço em acordar recebendo muitos beijos e abraços dessa turma aí. #nodramamom

Somos 6

Eu escuto todo tipo de comentário quando falo que estou grávida do quarto filho. Já me perguntaram se eram todos do mesmo pai, se foram planejados, se eu iria ligar, se eu queria mais um. A curiosidade das pessoas é algo insaciável e eu me propus a responder, sempre que meu humor permite, cada uma das perguntas mais indiscretas. Agora nessa reta final eu tenho tido pouca paciência, confesso e não aguento mais ouvir: nossa, como você é corajosa, seguido de uma cara de deus me livre. Sim, porque tem o “nossa, como você é corajosa” que vem seguido de uma cara de admiração, de carinho, de “poxa, que massa”. Mas essa cara de deus me livre, a pessoa pode guardar para si, porque eu não preciso dela.

Não acho que o que orienta a minha decisão e vontade de ter 4 filhos tem a ver com coragem. Sinto que tem a ver com amor, com propósito, com troca, com doação, com cuidar. Sinto que tem a ver com ser casada com um cara por quem eu sou perdidamente apaixonada e com quem eu pretendo envelhecer, o que facilita a minha maternidade. Não sinto que essa é a minha missão ou um dom divino, nada disso. Esses filhos são, antes de qualquer coisa, uma escolha muito consciente, que reafirmam a forma como eu encaro a vida e as coisas nas quais eu acredito.

Eu acredito que o amor e a presença são transformadores. Eu acredito que pai e mãe dispostos a ouvir seus filhos podem revolucionar uma geração. Eu acredito que dialogar com esses pequenos é a melhor forma de fazer política. Não espero nada deles, só o compromisso de serem pessoas bacanas e verdadeiras com suas vontades, mesmo que sejam muito diferentes das minhas.