O celular que não vou te dar

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"Por que que você quer que eu me sinta diferente?"

Esse foi o questionamento de João, quando ele, mais uma vez, investia numa conversa comigo sobre ter ou não celular.

João tem 10 anos e na minha avaliação ele ainda não precisa de um celular. Essa constatação é diferente do seu desejo e eu, como mãe, preciso lidar com isso. Preciso estar disponível para colher a raiva e a frustração dessa vontade não atendida. Preciso ter paciência para dialogar, mostrar, explicar, sem jamais querer convencê-lo que de seu desejo não é válido. Ele é. Mas as minhas crenças sobre crianças e celulares também é e eu sou a mãe dele, ou seja, aquela que está ali para estabelecer as margens.

Estou contando isso porque essa batalha é dura e ela precisa que nós, mães e pais, estejamos dispostos a enfrentá-la. Nossas crianças são nativas digitais. Elas se relacionam com a tecnologia de um lugar diferente de nós. Elas já sabem o que fazer diante de uma tela. A aula de informática da escola é obsoleta e o que eu penso sobre mundos virtuais também. No entanto, as relações humanas, isso não ficará velho jamaise é aí que estamos falhando solenemente. Nossos filhos não precisam ter um celular antes dessa necessidade existir realmente e quem decide isso e a dinâmica familar de cada um. O celular não pode atender ao desejo de pertencer ao grupo, de fazer parte, porque ele carrega outras características que são diferentes da mochila da Company que você chorou para ganhar – e ganhou. Celular vicia. E quando é a hora de dar o bendito celular, Lua? Essa régua é pessoal e eu não sou a fiscal do celular alheio, mas estudos apontam que antes dos 13 anos é importante evitar esse acesso, essa facilidade.

Essa postura talvez soe radical, mas e perder a filha para brincadeiras virtuais? E as crianças estarem expostas a abusadores? E a violência? E o cyber bulling? E a incapacidade de dialogar? A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, né? Que temos como controlar. Pois te digo: não temos. O que podemos fazer é isso: segurar, conversar, estabelecer limites e construir com eles uma relação saudável com redes sociais, com o que é de fato bacana e o que não é.

E filho, eu não quero que você se sinta diferente. Meu celular está a sua disposição quando você precisar checar o que acontece no seu grupo de amigos. Eu quero que você saiba que eu estou aqui e que, por enquanto, eu sei o que é melhor para você. Entendo sua chateação, sua raiva e posso te ajudar a fazer ela passar, se você quiser. Preciso que você leia uma pesquisa que vi recentemente sobre tudo isso. Quero saber a sua opinião depois. Quero te ouvir. Vai ficar tudo bem.

Links para quem quer ter essa conversa com as crianças:

  • https://antesqueelescrescam.com/2014/03/11/10-razoes-para-se-proibir-tecnologia-para-criancas/

  • https://madinbrasil.org/2017/08/autismo-virtual-pode-explicar-o-crescimento-explosivo-do-transtorno-do-espectro-autista-asd/

  • https://www.waituntil8th.org/

  • https://brasil.elpais.com/brasil/2017/06/23/tecnologia/1498213275_166491.html

  • https://pt.aleteia.org/2018/04/06/infancia-digital/

O corpo que a gente tem

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Já fui forte defensora do silicone. Caiu? Levanta? Murchou? Enche! Por que viver com algo que nos incomoda? E assim, me prometi que ao terminar minha jornada de amamentação, iria arrumar geral.
Pois bem. Promessa desfeita.
O peito desapareceu mas eu comecei a me esforçar para olhar para isso com mais generosidade e menos cobrança. Não tem sido fácil. Não é exatamente confortável gostar da gente, do nosso corpo. Estão sempre faltando 3 quilos aqui, uma bunda mais dura ali. Ser magra é uma busca constante e parecer jovem é algo que norteia nossas escolhas. Isso cansa. Estamos o tempo todo fazendo reparos e melhorias em coisas ou partes que não aceitamos, não achamos bonitos e repassamos isso naturalmente para as nossas meninas e meninos. Dificilmente é sobre saúde e a maioria das vezes é apenas sobre estética ou nóia mesmo. Colocamos nossa felicidade e autoestima ligados ao efêmero: a beleza. Claro que para algumas mulheres isso pode funcionar e ser transformador, mas podemos também viver em busca da parte que falta. A minha decisão de não colocar o peito, tem a ver com o meu compromisso de me amar mais e ensinar isso as minhas filhas.
E isso não é uma crítica a quem bota peito, arruma o nariz, cuida com afinco da sobrancelha. Isso é para que a gente pense e perceba as armadilhas criadas por nós mesmas (e claro, pela sociedade) e como podemos ser cruéis com a história que carregamos em cada parte do nosso corpo. Se amar é difícil demais, mas pode ser muito incrível. É onde começa o autocuidado. Para quem quiser entender melhor essa conversa toda, vale ler O Mito da Beleza, da Naomi Wolf. É muito chocante perceber a engrenagem que existe por trás do que fomos ensinadas a chamar de vaidade feminina.

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Let it go

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O que aconteceria se você deixasse de fazer o que você acha que só você faz? Sabe aquela coisa que está te deixando exausta, perto de pifar? Aquela atividade que você não consegue delegar por acreditar que só você sabe, só você consegue e claro, nunca tem ninguém pra fazer, além de você?

Vou te dizer o que aconteceria.

Nada. Ou melhor, aconteceria tudo igual, só que sem você. Ou, tudo diferente, mas ainda assim, aconteceria. Obviamente que não seria do seu jeito, mas isso não pode ser um problema, certo?

Não controlamos o que acontece com a gente e nem o que acontece ao nosso redor. Em fração de segundos, tudo muda. Nascemos, morremos, casamos, separamos, atravessamos a rua, mudamos de ideia. Viver em busca dessa tal segurança, desse lugar aonde você consegue ver tudo ou dar conta de tudo é um castelo de cartas, uma miragem no deserto: frágil e que na verdade, só existe na sua cabeça, para alimentar o seu ego.

Tenho atendido muitas mães que começam falando sobre as dificuldades dos filhos: choram demais, estão apegados demais, não ficam com ninguém, não dormem com ninguém, não comem com ninguém. A medida que vão se abrindo, que vão se ouvindo, percebem que o apego tem início nelas. E que no fundo, é um processo de querer se sentir reconhecida como boa mãe. Ei, para com isso. Você já está fazendo um trabalho incrível e agora precisa apenas confiar, aceitar e entregar para o mundo, deixar viver, deixar ser. Segura firme na mão do seu filho e só vai. Confiar talvez seja o seu processo de cura, de resgate da sua criança, de perdão. Não existe transformação sem essa etapa. #parentalidadepositiva #equilibrioparental

Em setembro tem workshop em Salvador e em Brasília. Vamos falar sobre nossas crenças e desafios?

Para se inscrever, clica no link da minha bio ou no www.sympla.com.br/luabfonseca

E se você quiser fazer um atendimento individual, me manda email que te explico como funciona: luandabarros@gmail.com

 

Uma pitada de ego

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Contrariando o cardápio da samana, ela pediu para levar mamão cortado para o lanche da escola, que indicava banana. Na volta, temos o ritual de desfazer as lancheiras e para minha surpresa, o mamão, do jeito que foi, voltou. Na hora do almoço, o pai sentou no lugar dela e isso foi motivo suficiente para muito choro e uma saída pela tangente para escapar de mais uma refeição. Não quis almoçar de jeito nenhum e concluiu dizendo assim: "Mãe, não quero comer agora. Na hora do lanche eu vou comer morango e depois suco e tá tudo bem".

Alimentar filhos é algo que mexe no ponteiro do nosso ego e isso é um grande erro. Logo de início, ainda no processo da amamentação a disputa é estabelecida. Quem amamenta x quem dá fórmula, quem dá o peito eternamennte x quem não vê a hora de começar com as frutas e assim, seguimos. Quando começa a introdução alimentar, parece que vamos ser submetidas a um teste de qualidade da nossa maternidade. Quem fizer o bebê comer brócolis ganha. O que ninguém diz, é que tudo pode ser um mar de rosas, até se transformar num tsunami e a criança que comia tudo, passa a rejeitar até salsa picada. A mãe se descabela, sofre, compra livro da Bela Gil, vai no nutricionista e busca todas as alternativas possíveis para resolver o problema do filho, que come mal.

Olhar para a sua própria relação com a comida, ninguém quer. Entender que no tamanho do estômago do seu filho você não manda é algo que parece não fazer sentido na cabeça das mães: "como assim não tá com fome?? Claro que tá com fome!"

Experimente tirar o ego dessa receita.

Experimente entender e aceitar seu filho com as dificuldades que ele tem.

Desligue a tv e transforme as refeições em um momento de conexão, onde comer é um detalhe, mas que se faz com prazer.

A mesa precisa ser um lugar de convívio, de diálogo. Ninguém aprende a gostar de comida quando se tem uma colher sendo enfiada goela abaixo.

Promova o bem estar trazendo para as refeições diversidade, cores e sabores. Aproveite, se divirta, conte histórias, ouça, compartilhe do seu prato. E confie que aos poucos, a relação das crianças com o se alimentar vai sendo transformada. Mas saiba que começa em você.

P.S: nesse dia, Teresa não almoçou. Estava mau-humorada e precisava de um tempo. Me prometeu que lancharia, e assim o fez. Foi respeitada em sua falta de apetite e respeitou o fato de só poder comer novamente no meio da tarde. #parentalidadepositiva #equilibrioparental

 

Modalidade esportiva praticada: cuspe ao alto

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Cuspe para o alto é uma modalidade esportiva  amplamente praticada por mães. Juramos que não vamos deixar a criança ver tv antes dos 3 anos e quando menos se espera, lá estamos nós e a Peppa abraçadas para ter 15 minutos de tranquilidade. Prometemos que não vamos dar chupeta, mas depois da décima noite sem dormir e ouvindo um choro enlouquecedor, abrimos todas as caixas de presentes esquisitos e nos rendemos ao bico. Nos preparamos para fazer BLW mas no primeiro engasgo ficamos com medo da criança morrer e voltamos para a papinha. Diante da birra homérica em plena pracinha, sentimos vontade de ligar para o Procon e pedir a troca da mercadoria. Todas nós somos ótimas mães até nossos filhos nascerem. E sabe por que isso acontece? Por que os filhos nos chamam para rever nossas crenças. Antes deles, temos certezas inquestionáveis e uma visão do mundo não revisada, o que nos leva a uma rigidez de pensamentos e expectativas.

Diante de conflitos ou situações nunca antes experiênciadas, a gente acredita que vai agir de um jeito e tudo acontece exatamente de outro. Ser surpreendido pelos filhos é maravilhoso e assustador, mas diante de nós está a possibilidade de se revisitar, desconstruir verdades absolutas, aprender junto e crescer com eles. É aí que acontece a mágica. Se permita ver o mundo pelos olhos de seu filho. É transformador.

A minha agenda de atendimentos individuais está aberta para setembro. Esse atendimento pode ser feito também por skype, se você não mora em Brasília. Para maiores informações, me manda um email: luandabarros@gmail.com

#parentalidadepositiva #equilibrioparental #dialogosfamiliares

Autoconfiar

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Autoconfiança.

Como anda a sua?

Li recentemente que ao aplicar para uma vaga de emprego 60% dos homens enviam seus currículos mesmo não preenchendo todos os requisitos. Sabe qual a porcentagem de mulheres que faz isso? Nem eu, mas tenho certeza que é muito menor do que a dos homens. Nós precisamos nos sentir perfeitas, seja para a vaga de emprego, seja para ir na praia no fim de semana, seja para ser mãe. Quando é que vamos entender que essa busca nos adoece?

Mas sabe o que é pior? Ao encontrarmos uma mulher autoconfiante e segura de si, ela provoca em nós um profundo incômodo. Julgamos a segurança com que ela anda, se veste, fala e vive a vida, como uma afronta a nossa incapacidade de nos amarmos profundamente. Ela, segura de si, abala ainda mais as nossas inseguranças. Como ela consegue e eu não? E assim, buscamos um jeito de descontruir e desmerecer aquele mulherão da porra. Para que essa mulher ganhe nossa admiração, ela precisa ser discreta, não pode chamar atenção, não pode falar palavrão e é melhor que não fale exatamente o que pensa. Perpetuamos o nosso machismo e nos aprisionamos na nossa própria rede de preconceitos e hesitações.

Minha sugestão é que da próxima vez que você encontrar uma mulher assim na sua frente, dê a mão a ela. Entre junto na sala, incomode. Aprenda a cultivar a autoconfiança e o ego na medida certa, que é aquele tamanho em que você consegue se sentir grande e boa o suficiente para ajudar outras mulheres a sentirem o mesmo. Sigamos juntas e mais fortes.


 

Trabalho e maternidade

Voltar a trabalhar e ser demitida, sofrer com o fim da licença maternidade e dirigir chorando para o trabalho, mudar de profissão, empreender em outra área e ver que está trabalhando muito mais do que antes, ficar feliz de voltar ao batente e se sentir a mulher de antes dos filhos, ser questionada por sua força de trabalho depois dos filhos, ter rede de apoio sólida, pagar creche, se reiventar, ter mais tempo, encontrar o equilibrio.

Trabalho e maternidade é uma caixa preta de tantos outros assuntos e sentimentos. Todas nós sentimos essa pressão em algum momento e lidar com tudo isso é mais um ítem para a nossa carga mental. Ontem tive a oportunidade de dividir com Tetê Brandão, Camila Domingues e Débora Ghelman suas histórias e perspectivas sobre o que é o desafio de cada uma. Contei um pouco da minha história e falei sobre como mudar de profissão e amar o que eu faço, me trouxe leveza para aceitar minhas faltas como mãe. Faz parte. Falamos também sobre como é fundamental trazer os homens para essa conversa. Como, ao assumirem seus papéis de pais, as mães seriam menos sobrecarregadas. É importante que eles também briguem para sair mais cedo por conta do pediatra, da vacina, da febre repentina. Como a gente, muitas vezes, ocupa esse espaço sem nem perceber e ao final, estamos esgotadas.

Trabalho e maternidade é uma equação difícil mesmo de equalizar, mas se cuidar, criar, educar filhos continuar sendo uma responsabilidade só da mulher, a gente não vai sair do lugar.

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Difícil, eu?

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Crianças difícies. Esse conceito difuso tem surgido muito nos meus atendimentos. A busca é por algo que "concerte" as crianças, deixe elas mais "normais", mais obedientes, menos agitadas. Entre as queixas estão a dificuldade de ouvir, uma certa agressividade, uma facilidade de xingar, explodir. Se a criança em questão tiver um irmão, a sentença está dada, o rótulo está posto e o laudo está pronto. Agora é só passar na farmácia para resolver a questão.

Será?

Entendo as nuances e delicadezas desse assunto e longe de mim querer fazer diagnóstico infantil pelo instagram. Só quem vive as demandas de uma criança que exige mais atenção sabe o quanto tudo isso pode exaustivo e solitário, mas o meu ponto é: será que todas esses pequenos precisam mesmo de um diagnóstico, um laudo e principalmente, uma medicação?

A necessidade e a expectativa dos adultos de que a criança corresponda ao que está catalogado, esquece de olhar o indivíduo. Esquece de abraçar as variedades. Exclui a possibilidade de ser e fazer coisas de jeitos diferentes. A escola, muitas vezes, potencializa essa busca e o diagnótico sobre a criança, isenta a instituição de tentar caminhos alternativos e culpabiliza os pais pelo que ela considera falta de limites da criança. É batata quente que ninguém quer segurar. Enquanto isso, o Brasil ocupa o segundo lugar na venda de remédios psicolestimulantes, usados para controlar e atenuar os comportamentos considerados inadequados para o ambiente escolar. Esse número é grave, sério e merece nossa atenção e o nosso questionamento. Pode ser que seu filho precise mesmo de uma intervenção médica, mas pode ser também que vocês estejam apenas enfrentando uma temporada difícil.

Percebo a dificuldade dos pais em serem margem para seus filhos e entendo o quanto isso pode ser prejudicial. Vejo o quanto crianças são poupadas de frustrações e isso acaba se transformando numa bomba relógio. Do outro lado, encontro cada vez mais escolas interessadas em manter crianças de 4 anos sentadas para fazer atividades que serão entregues a pais pouco interessados com o que acontece na sala de aula ao fim do semestre. Encontro também alfabetização precoce e aulas de informática no jardim de infância, encontro aulas de química exatamente iguais como eram há 40 anos atrás. Não tá fácil nem de um lado e nem de outro. Para quem vive esses desafios eu proponho a pausa. Antes de querer concentar o que nem sempre está quebrado, vale a pena buscar a conexão com a criança que está bem aí na sua frente. E independente da sua escolha como pai e mãe sobre como lidar com as questões que o seu filho apresenta, esteja disponível para o toque, o beijo, o olho no olho. Isso é potente. Além disso, se seu filho realmente precisa de um acompanhamento médico, não se envergonhe, não se isole e cuide de você também. É  você quem faz a roda girar.

Para começar

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Pais que desejam tentar um novo jeito de abordar os filhos, de construir relações pautadas por mais respeito e menos gritos, sempre me perguntam por onde começar. Querem saber como desenrolar o novelo de birras, de "maus comportamentos" e agressões, mas se sentem completamente perdidos e sem ferramentas. Olham para as propostas que a parentalidade positiva traz e se sentem atraídos pelas promessas de dias melhores, lares mais equilibrados e crianças mais tranquilas. Para esses pais, eu queria, em primeiro lugar oferecer o meu abraço apertado. Daqueles abraços longos e demorados, que a gente só dá em quem a gente gosta de verdade. E esse abraço vai junto com um conselho: não se iluda. Não existe nada fácil.

A parentalidade positiva não é um botão mágico de resolver problemas. O que esse pensamento tem de tão especial é a possibilidade de criar filhos com mais consciência sobre o nosso papel. E o resultado provável não são crianças perfeitas, mas sim, adultos mais preparados, mais seguros e confiantes dos processos.

Então, antes de me perguntar por onde começar, é fundamental você saber se quer começar. Se acredita que diálogar é mais transformador do que ordenar, se entende que castigos não ensinam e se está disposto a olhar para seu filho com muita, muita verdade. As transformações  começam na gente e quem muda somos nós, não as crianças. Essas mudanças refletem em vários outros setores das nossas vidas, porque é um aprendizado muito rico sobre a gente mesmo. Falo sobre isso no meu workshop que acontece próximo sábado, dia 16 de agosto, em Recife e em setembro chega a Salvador! Estarei na capital baiana no dia 15/09 e para maiores informações, é só clicar no link que está na minha bio! #parentalidadepositiva #equilibrioparental

www.sympla.com.br/luabfonseca

 

Desobediência

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Olhando assim na foto ninguém diz, mas meus filhos não são obedientes. Me perdoe se isso te causa algum tipo de decepção ou te parece um contrassenso. Eu, educadora parental, deveria ter filhos exemplares, correto? Não, nada mais equivocado. Mas o equívoco está em acreditar que crianças precisam ser assim. Obediência é uma palavra que me causa arrepios. Pensar em meninas e meninos obedientes, que seguem regras sem questionar, que aguentam calados qualquer incômodo pela necessidade de agradar quem quer que seja, me faz perder o sono. Crianças que engolem o choro, o medo ou mesmo a vontade de fazer bagunça para manter a ordem, isso me causa uma enorme tristeza. Eu desejo mais para meus filhos.

Abrir espaço para os questionamentos e as colocações das crianças não é atender todos os seus desejos e nem criar um ambiente de desordem. Dar permissão para que a criança diga como se sente não é ser permissivo. O meu papel de mãe continua ali, claro e evidente: eu sou o contorno, existe um desenho do que pode e o que não pode ser feito e eventualmente as crianças vão se frustrar. Os meus limites estão muito bem desenhados e eles precisam ser respeitados. E é assim que vamos aprendendo sobre ouvir, falar, calar. Sobre diálogo, sobre o outro, sobre o mundo. Não se ensina sobre respeito com imposições, gritos ou ameaças.

Relações hierárquicas - eu mando e você obedece - não cabem mais. Não espere que seu filho baixe a cabeça para o seu olhar de reprovação, como você fazia diante de seu pai ou sua mãe. Não foram as crianças que mudaram. Tudo mudou e esperar obediência da criança só vai te trazer frustração e raiva. Como pais, precisamos construir a cooperação. Precisamos desenhar esse lugar de autoridade, sem autoritarismo. A grende questão é que demanda tempo, paciência e presença. É mais difícil sim, mas é possível. Vamos juntos?

Sábado tem workshop sobre Parentalidade e Educação Positiva na @casadasasas no Recife.

Para se inscrever, é so clicar no link que está na minha bio (www.sympla.com.br/luabfonseca). Restam poucas vagas! #parentalidadepositiva #educacaoparental


 

Qual o seu medo hoje?

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Você sente medo?

Com que frequência?

Existem vários tipos de medos e, consequentemente, várias reações ao medo.

Tem aquele medo que faz o estômago embrulhar. Tem o medo que congela as pernas. Tem o medo que embaralha a razão. Tem o medo que só dispara o coração e logo em seguida, derrama adrenalina no corpo todo. Sentir isso não é bom ou ruim, apenas faz parte. Mas de uma forma esquisita, fomos ensinados que não devemos sentir medo. Que o oposto desse sentimento é a coragem e que essa sim, é algo bacana, grandioso. A verdade é que um não existe sem o outro. Ninguém é capaz de se jogar de paraquedas sem rever o filme da vida, sem experienciar aquele gosto amargo do medo que fica na boca. E sabe porque as pessoas se jogam mesmo assim? Porque é divertido e passa rápido.

Tenho sentido muito medo da morte. Não de morrer, mas de acabar. De deixar as coisas por aqui. Gosto demais de viver, mas muitas vezes esqueço disso. E olho para os problemas, olho para as decisões a serem tomadas, olho para os vazios e permito que o medo aumente seus tamanhos. Não, Seu medo. Eu sou maior. A vida é maior e passa rápido.

Não podemos negar nossos medos, varrer eles para embaixo do tapete. É preciso olhar para eles, nomeá-los e com isso, deixar claro quem manda em quem.

Pensar na impermanência ajuda.

Pensar na velocidade do tempo também.

Tudo é muito breve e o medo simplesmente não pode valer tanto a pena.

Rir ainda é o melhor remédio

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Uma das coisas mais legais do meu trabalho é a possibilidade de aprender com outros pais sobre como lidar com situações desafiadoras. A história de cada um, o que é compartilhado e a solução encontrada nas diferentes dinâmicas familares, é o melhor do workshop. Ser facilitadora dessa conversa é o meu jeito de me reciclar como mãe, rever minhas certezas e ir costurando novas formas de maternar.

Recentemente uma mãe trouxe algo que me desconcertou. Ela falou que desde criança fazia caretas como forma de alivar o estresse e que isso a acompanhava na vida adulta e era muito bom, inesperado e claro, divertido.

Nós mães temos muita dificuldade em rir das situações de caos. Em fazer graça, em ser divertida. Eu sei que estamos cansadas e que carga mental é pesada, mas por que escolher o caminho mais penoso se a gente pode escolher o mais leve? Sim, a gente pode escolher e isso é o que nos diferencia de uma criança, que não tem o repertório emocional que nós temos. Se a gente se propor a reprogramar o jeito que enxergamos as coisas (não é fácil, mas é possível), vamos poder ocupar um lugar que é de difícil acesso para nós, que é o caminho do riso.

Careta? Sim, por que não?

Ao invés de soltar um palavrão, faz uma careta.

Ao invés de gritar, faz uma careta.

Ao invés de dar um esporro, faz uma careta.

Ou faz tudo junto, para que ao final, o riso contagie.

O bom humor é uma arma poderosa para lidar com as crianças.

Mas assim elas nunca vão entender que existem assuntos sérios!

Não subestime a capacidade das crianças de enteder as coisas. Elas sempre entendem tudo. O riso é apenas uma possibilidade de encarar as piores situações com inteligência emocional, com aquela leveza que você tanta admira nos outros.

Seja essa leveza. Passe ela a diante. Ensine ela aos seus filhos. Rir ainda é um excelente remédio. #parentalidadeconsciente #equilibrioparental.

O cordão que não nos une

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Qual é a hora de cortar o cordão umbilical?

Em que momento ele para de pulsar e está na hora de romper?

O que nos mantem conectados depois disso?

Ver os filhos crescerem é presenciar a mágica da vida. A gente se perde entre um truque e outro, fica se perguntando como passou tão rápido, esfrega os olhos para ter certeza do que foi dito, do que está sendo vivido. Parece mentira. Mas não é.

E a medida que o tempo vai passando, percebemos que aquele cordão é uma grande ilusão. Nada nos prende uns aos outros. Não existem garantias. O amor incondicional não vem de graça. Ele precisa ser cultivado, cuidado. Precisa que todos os dias eu retire as minhas expectativas e permita que o outro seja. Ele é incondicional se e somente se, a gente existir um sem o outro. Mas pensar nisso dói e aí, eu me escondo de baixo do controle e sigo de forma cega, achando que eu mando ou que o melhor jeito é o meu. Abrir mão do controle é mudar de janela e ver a paisagem por um outro ângulo.

Esqueça o cordão.

Se conecte através do respeito. É esse sentimento que precisa pulsar. #parentalidadepositiva #equilibrioparental

Empreendedorismo possível

Empreendedorismo possível. Ouvir esse conceito foi como receber um abraço, daqueles longos e calorosos, que acalma coração acelerado. Nunca fui boa com números, planilhas ou mesmo planejamento e isso sempre me puxava para um lugar do "não saber empreender". E sempre que vinha uma vontade de fazer algo acontecer, vinha junto a lista de cursos indispensáveis para viabilizar o sonho, a ideia e ai, não andava. Uma mistura de síndrome da impostora com procrastinação. Era também um jeito de deixar para depois, de reafirmar a minha incapacidade e de permanecer no mesmo lugar.

Desde o convite da revista TPM, tenho falado muito sobre trabalho e carreira e essa semana a @renatamiwa (inteligente, linda e querida) pediu minha colaboração para um talk que vai acontecer gratuitamente sábado, dia 28/07 no MIS, em São Paulo, sobre esse tema e me trouxe o conceito de empreender de forma possível. Confesso que me senti aliviada.

Estou vivendo um momento de ebulição profissional e pensar no tanto de projeto que pode surgir apartir disso é maravilhoso. Mas eu continuo sendo mãe de 4 crianças e eles são a minha prioridade. Claro que falo de um lugar de privilégio, mas que é o meu lugar e carrega as minhas questões. Então, como conciliar a vontade de fazer tudo o que desejo com as demandas familiares? O único jeito é entendendo que as coisas vão acontecer aos poucos e que tá tudo bem. Eu não preciso ter pressa de dar certo. Eu não preciso apresentar balanço anual para ninguém, além de mim. Isso siginifica que posso ter calma. Posso respeitar mais o tempo das coisas. Posso assumir que quase nada está sob meu controle e ainda assim, existe a chance de dar certo. Abrir mão de regras que eu não criei, para que o meu trabalho flua, encontre seu compasso. Empreender de forma possível, me parece um carinho, um jeito de ser gentil com a minha força produtiva, de me orgulhar do que venho construíndo e de perceber que o futuro não precisa ser angustiante. Ele pode ser massa. <3

 

Confete

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Depois de uma tarde intensa, com muitas histórias compartilhadas, Renato me abraça e diz que eu o ajudei a pensar coisas que ele nunca havia pensando. Ele e a mulher participaram do workshop e o casal trouxe várias questões. Ele, um homem do interior de Minas Gerais, criado em uma família conservadora onde o amor e a rigidez sempre estiveram muito próximos, quase sem definição exata do que é um e do que é o outro. Respeito foi a palavra que ele usou para falar de seus pais, muito simples, mas muito honestos. Renato é pais de duas meninas, professor universitário. Um homem de seus quarenta e poucos anos que olha para suas filhas e se sente obrigado a encontrar novos caminhos para se relacionar com elas. Entende que o seu repertório de filho é pouco para a complexidade de educar duas meninas nesses novos tempos. Durante quatro horas ele me questinou, apontou suas dificuldades, trouxe suas dúvidas. Falar sobre parentalidade positiva é como pular de paraquedas: dá muito medo, você não entende exatamente porque você precisa fazer isso, mas a sensação na chegada é indescritível. Ouvir as palavras de Renato ao final do encontro é a minha linha de chegada. É quando eu sinto que fiz meu trabalho bem feito e é esse tipo de coisa que eu quero escutar. Aqui no instagram existe uma audiência que me acompanha. Mulheres, em sua maioria. Mães, em sua maioria. De certa forma, a gente já troca ideia, já se procura, se ouve e se acolhe. Mas quando chega um marido desavisado, que nunca viu a minha cara, que não sabe muito bem sobre o que eu estou falando e que no final vem para o jogo junto comigo, é o confete no sábado de carnaval. É alegria pura. Quebrar paradigmas é revirar as camadas internas. Dói. Mas é importante e necessário.

Minha próxima parada é dia 18 de agosto, em Recife. Vou estar na @casadasasas para dois encontros. Se você quer participar, se inscreve aqui ó: www.sympla.com.br/luabfonseca

Diálogos sinceros

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"Escutei você falando sobre seus filhos e fui sendo tomada por uma aflição, um embrulho. Estou aqui, completamente distante de quem eu era, desconectada, descuidada, sem conseguir me amar e você está aí, com quatro crianças, bonita, maquiada, magra. Sei que você não está aqui para dizer como se faz nada, mas me fala por que eu não consigo e você consegue."

Diálogos sinceros me interessam e ouvir essa mulher foi uma das coisas incríveis que me aconteceu em Belo Horizonte. A sua verdade cortante é a verdade de tantas outras. A sensação de incapacidade e desconexão com a vida antes dos filhos faz com que a gente não acredite que é possível realizar mais nada. É como se a gente estivesse em um túnel escuro e por mais que digam que existe luz logo ali adiante, a gente anda, anda e não vê.

Essa mesma mulher contou que havia mudado de carreira. Que abriu mão de um salário bom, de uma vida profissinal de sucesso, para ter mais tempo para a filha e que há dois meses havia aberto um brechó, que estava indo bem. Contou que na loja ela encontra outras mulheres, vivendo situações parecidas com a dela e que quando percebe, está acolhendo e sendo a força que a outra precisa. E o maluco disso tudo é que mesmo diante desse passo tão transformador para  vida dela e para a vida da filha, ela não se achava absolutamente foda.

A gente precisa se autorizar.

Precisamos olhar para nossos outros papéis além de mãe e entender que somos boas, ótimas, incríveis no que fazemos.

Precisamos reconhecer os passos pequenos como parte fundamental de um processo de mudança que é longo e contínuo.

Precisamos acreditar na nossa força e abraçar nossas fragilidades, que existem e não precisam ficar em baixo do tapete da sala, porque não são vergonha nenhuma.

Precisamos nos elogiar, de frente pro espelho, de forma sincera e segura.

Ao final da roda eu fui abraçar essa mulher e agradecer por sua história, que assim como a minha, pode ser inspiradora para tantas outras. Estávamos emocionadas e mais inteiras.

 

Um café para nós cinco

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Meus superpoderes tiraram férias esse final de semana e ficamos todos bem ruins aqui em casa. Começou na quinta com Teresa vomitando 8 vezes (e eu rezando para aquilo terminar porque já não tinha mais lençol para trocar!) e se estendeu até segunda-feira, quando eu acordei com dor de cabeça, dor de barriga e sem marido, que tinha viajado no domingo para começar a semana em um trabalho fora. Claro que na geladeira não tinha nenhuma fruta e a última fralda de Joaquim eu encontrei por sorte, na mochila de passeio. (Alguém se identifica?)

Pensei rapidamente que aquilo tudo poderia ser um prenúncio de uma semana bombástica e a dor de cabeça aumentou. Então, resolvi pensar novamente: porra nenhuma! Quem manda nessa energia sou eu. Vamos lá! Coloquei os menores no carro e fui até a banca de frutas e farmácia, comprei pão e pronto. João ficou em casa dando uma geral na pia de pratos do jantar, por livre e espontânea pressão. Quando voltei, estava exausta, sem forcas mesmo, mas ainda tinha que alimentar 4 crianças e eu. Anunciei: preciso da ajuda de todos. Estou me sentindo doente e cansada. Como vocês vão se dividir?

Irene e Teresa foram forrar a mesa e João ficou na cozinha comigo.

Primeiro ele tentou cortar o pão com a faca de passar requeijão e aquilo não deu muito certo, o que deu início a uma série de reclamações em voz alta, para que eu ouvisse e resolvesse o problema. Dei a faca correta e mais um pão para ele reiniciar o processo.

Teresa e Irene, entravam e saíam da cozinha pegando prato, geléia, as frutas e levando para a mesa.

- Ahhhhhh eu não sei fazer isso! Sou muito burro! (lágrimas nos olhos, muitos gestos com as mãos e uma pitada de drama leonino)

- Calma, filho. É só um pão. Concentra que você vai conseguir.

- Não sei fazer isso. Sou incapaz de cortar um pão.

- Olha, eu tenho certeza que você é capaz. Tanta certeza que vou me sentar na mesa e te esperar lá, porque, como já disse, eu tô morta e tá todo mundo com fome.

- E você não vai me ajudar??? (lágrimas nos olhos, muitos gestos com as mãos e uma pitada de drama leonino)

- Você vai tentar mais uma vez. Se não conseguir, me chama que te ajudo.

E sai, sem nem olhar para trás, para não ver os olhos revirados.

Cinco minutos depois ele chegou na mesa com 4 pães lindamente assados e me deu um para comer. Estava orgulhoso de ter conseguido e eu, feliz com sua conquista.

É mais fácil e mais rápido fazer do meu jeito, atropelar os processos e não dar espaço para eles ganharem autonomia. Mas é tão maravilhoso ter a colaboração deles, ainda mais nos dias em que estamos nos arrastando. <3 #parentalidadepositiva #equilibrioparental

Permitir sentir para deixar ser

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O algoritmo do meu instagram me faz acreditar que tem muita gente, muita mesmo, falando, discutindo e pensando o ser pai e mãe de um jeito novo. Mas a verdade é que somos uma micro bolha, dentro de uma micro bolha. Na real, tem muito pai e mãe que ainda bate nos seus filhos, que ameaça, humilha, xinga e castiga, de forma natural. Tem muito pai e mãe olhando para o passado e buscando a hierarquia como forma de estabelecer respeito. Tem muito pai e mãe projetando suas faltas ou suas expecativas nas crianças. Tem muito pai e mãe que tem certeza que o melhor a fazer é reproduzir um modelo antigo pelo simples fato de não querer questionar ou buscar novas possibilidades. Falar de parentalidade positiva ainda causa estranheza e desconfiança e mais uma vez, o medo é o sentimento que impede a mudança.

Medo de não ser firme o suficiente.

Medo de não ser uma figura de autoridade.

Medo do filho não aprender a se comportar.

Medo de lidar com seus sentimentos e o da criança.

Medo de ser julgada por suas escolhas.

Medo de não fazer a coisa certa.

Medo de perder o controle sobre a criança.

E aí, esse medo faz com que diante de uma criança ques está em processo de aprendizagem eu não permita o erro, não apoie os medos, não abrece as dúvidas e não olhe para as particularidades. Aplaudimos a iniciativa de ter um canal no youtube, mas não queremos falar sobre frustrações.

Ter medo é natural. A gente teme o que não vê, o desconhecido. Tememos o futuro e somos filhos da busca pela estabilidade, na certeza de que vamos encontrar a felicidade. Bom, você já deve ter percebido que não há garantias e felicidade vem se tornando um conceito cada vez mais rarefeito. Então, por isso e por tantos outros motivos, abrece as incertezas e a vulnerabilidade de ser pai e mãe. Se permita sentir todos os medos, todas as dores. Porque só assim você pode permitir que os seus também sintam tudo que é preciso sentir. <3

#parentalidadepositiva #equilibrioparental

A pergunta de um milhão de dólares

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Na última live sobre castigo uma mãe queria saber se crianças que são criadas na Disciplina Positiva não se tornam pessoas mimadas. Sei que essa dúvida martela no juízo de pais e mães que entram em contato com os princípios desse pensamento sobre educação e nada mais natural do que se questionar. Entendo que a ideia de ouvir, acolher e respeitar uma criança pode gerar essa confusão entre ser amada e ser mimada. Mas uma criança mimada é alguém que não ouve nãos, que é privada de frustrações, de conflitos. Uma criança mimada vive no modelo permissivo de parentalidade, onde os pais têm enorme dificuldade de impor limites por se sentirem em dívida com aquela criança, seja pelo motivo que for. Disciplina Positiva não é sobre isso.

Quando eu me proponho a respeitar uma criança, a ouvir suas necessidades, isso não quer dizer que eu vá atender todos os seus desejos. Eu preciso, como mãe, ter muito claro quais são os meus limites e estabelecê-los com firmeza e gentileza. Preciso entender que educar é uma longa jornada e que a repetição, o exemplo e a coerência são importantes no processo. O meu lugar de adulto na relação é estabelecido pela cooperação e não pela ordem ("eu mando, você obedece") e isso é importante para a criação de vínculo, para que daqui a 20 anos esse filho queira almoçar na sua casa no domingo, sem ser por obrigação (ui).

Crianças que crescem na Disciplina Positiva têm mais chances de ser tornarem adultos que entendem a linguagem do amor e não aceitam outra coisa além disso em suas relações.

A gente precisa como mães e pais descobrir onde queremos depositar nossa energia: se é na revolução pelo amor ou na manutenção dos buracos emocionais. Não tem certo ou errado. Tem escolhas, tem caminhos e tem crenças. #parentalidadepositiva #equilibrioparental

Sobre resiliência

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No dia em que anunciamos a viagem, Teresa correu para o quarto e "preparou sua mala". Depois veio na sala mostrar o que ia levar: uma blusa com proteção UVA, a calcinha do biquini, duas pulseiras e mais alguns brebotes. A mala era na verdade uma maleta de metal com alguma princesa na frente e uma alça de miçanga. Já tinha uns meses que ela carregava aquela bendita para cima e para baixo e claro que ia levá-la para Recife.

Um dia antes de voltarmos, ela foi ao cinema com a avó e levou a maleta a tira colo. Entre menino, pipoca, frio e vontade de fazer xixi, a maleta foi esquecida e só lembraram dela quando já estavam em casa.

Teresa chorava inconsolada. Minha mãe, sentido-se culpada pensava maneiras resolver a situação, minha irmã no telefone ligando para o shopping, Pedro sem acreditar naquela cena, tendo uma reunião de trabalho no meio da sala confusa. E eu? Dando colo.

Minha mãe e minha irmã voltaram no cinema, acenderam as luzes, procuraram em baixo de cada poltrona. Foram nos achados e perdidos e nada. Voltaram para casa arrasadas e por conta da hora, não conseguiram comprar nada para substituir a perda. Ainda bem. Teresa havia adormecido entre um choro e outro, mas o tempo todo ela tinha sido acolhida na sua dor. Na tentativa de resolver, a solução mais prática seria encontrar uma outra maleta. Se fosse igualzinha, melhor ainda! Mas e que estava dentro? Todo aquele tesouro havia desaparecido também. É… repor o tesouro seria mais complicado.

Entender que nem tudo precisa ser substituido é difícil. Queremos tapar buracos. É mais fácil do que olhar para eles e apenas seguir em frente. Perder coisas é uma merda. Perder pessoas é desolador. Mas é algo que acontece e a vida precisa seguir. Ensinar sobre isso, é ensinar sobre resiliência, sobre o que sentimos.

Teresa não ganhou outra maleta, mas encontrou uma bolsa velha em casa onde passou a guardar outros tesouros. Não pode ver uma caixa, que já começa a guardar coisinhas, sementes, bijuterias, trecos. Se a gente tivesse comprado outra bem ali naquele momento, deixaríamos passar uma oportunidade e tanto de construir com ela o significado da perda (ela ainda fala da maleta, mas agora de um jeito leve, divertido até) e a importância de se refazer, de dentro para fora e não de fora para dentro. #parentalidadepositiva #equlibrioparental